Desmestiçagem na Raposa / Serra do Sol- última parte

Aproveitando o dia de ativismo indígena em Brasília para demarcação de mais terras, aproveito o clima para concluir minha análise em torno da Raposa / Serra do Sol.

Sabe-se que em situações interétnicas as diferenças de classe tornam-se menos importantes que as diferenças étnicas, como, por exemplo, o caso dos negros contra o apartheid, os movimentos civis contra o racismo nos EUA ou mesmo serve como indicação o nacionalismo quebequense. Em geral, os grupos envolvidos chegam a eliminar suas divergências para se antepor ao objeto de sua opressão. Porém, essa referência nunca foi acionada no caso da demarcação da Raposa / Serra do Sol, por lá ter se procedido uma verdadeira limpeza étnica de eliminação dos direitos e humilhação física e existencial sobre os mestiços que viviam na área. Nenhuma ong, nenhum partido político, nenhuma organização humanitários saiu em defesa desses que ocupavam legitimamente a região, que pejorativamente foram chamados de “fazendeiros” e expulsos para Boa Vista, trazendo tão só humilhantes valores indenizatórios, verdadeiras esmolas dadas pelas benfeitorias de boa fé.

Chamados de fazendeiros, nada mais eram que simples criadores habitantes de residências precárias e, invariavelmente, analfabetos. A maneira como criavam gado em pastagens extensivas, e os parcos recursos que o lavrado permitia explorar devido a pobreza do solo, transformavam-no em pecuaristas rústicos e descapitalizados, com uma média de 200 reses do tipo pé-duro, adaptadas ao clima hostil do lavrado[1]. O dinheiro advindo da venda de carne ao mercado de Boa Vista, não lhes garantia o suficiente para contratar mão-de-obra para os serviços nas “fazendas”. O trabalho nelas tinha por isso base familiar, exceção feita a alguns vaqueiros que se empregam  com o compromisso de  receber o pagamento na forma de reses.  Por  conta  disso,  nunca conseguiram  acumular o suficiente   para   expandir  e diversificar suas  atividades;  ao contrário,  a tendência  foi  sua  descapitalização   lenta e   gradual, forçando-os a ter outra atividade na cidade, como motoristas, zeladores ou outras profissões de baixa qualificação. Essa população era formada, em sua maioria, por mamelucos, filhos ou netos de mães indígenas.

No nordeste de Roraima, esta situação gerou um fator social bastante específico. Como o negócio com a pecuária era a única maneira de sobrevivência para esse chamado “fazendeiro”, sem nenhuma vocação para a agricultura e considerando-se que para tal ele necessitaria de no mínimo 10 ha para cada gado dada à pobreza do solo do lavrado, ele se tornaria um obstinado em relação à permanência de suas terras. Sua relação com índio passou ser, então, moldada sobre dois pontos de vista básicos: um que o levou a se aproximar dos índios para manter com ele relações de convivência mútua, por ser parente ou para ser  mão-de-obra para as tarefas nas “fazendas”; outra que o distanciou do indígena por conta das garantias constitucionais a eles assegurados, somado ao conceito de imemorialidade e da suposição de sua posse pretérita. A suposição de direito da posse indígena sobre a terra era a negação do mesmo direito ao mestiço (coube aos antropólogos  da USP, Unesp, Unicamp e UnB, depois crias insólitas geradas no curso de antropologia daqui da UFRR, e seus bem pagos laudos, transforma-los em fazendeiros e opressores históricos de indígenas). Para os “fazendeiros”, a primeira ação separou índios amigos e inimigos; a segunda gerou absoluta insegurança jurídica decorrente da negação de direitos sobre o uso da terra, assegurando-lhe a humilhante indenização pela chamada “benfeitorias de boa fé”. Os amigos geralmente eram parentes envolvidos na lida com o gado, os inimigos assim eram pela hostilidade ativista através de roubo de gado, invasões e instalação de casas permanentes nos campos de pastagens e queima do campo. O CIR – Conselho Indígena de Roraima, ligado a Ongs e ao CIMI coordenava, em toda região, esse tipo de ativismo terrorista.

Foram ações que deixaram os “fazendeiros” imobilizados, dada a dificuldade em entender as motivações do conflito e a partir dela manifestar reações organizadas contra ele. Com isso, tornaram-se para a FUNAI simples desintrusados, palavra que carrega em si o sentido de um ser sem direito. O pouco da batalha jurídica sobre o caso foi financiada por produtos de arroz em larga escala, brancos do sul do Brasil, com capital suficiente para contratar e pagar competentes bancas advocatícias. Os “fazendeiros” quase sempre ficaram reféns de advogados oportunistas que lhes arrancaram até a última gota de suor.

Esse quadro gerou a seguinte situação: havia os indígenas ativistas apoiados por poderosas ongs, antropólogos, ambientalistas e uma plêiade de simpatizantes da “causa” espalhados pelo mundo. Havia ainda os indígenas, geralmente evangélicos, que compunham ações para uma existência comum entre eles e os ditos “fazendeiros”, abrigados na SODIURR, organização aliada do governo do Estado de Roraima. No lado mais frágil desse quadro estavam eles, os ditos “fazendeiros”, vítimas de políticos interessados em seus votos, vítimas de advogados oportunistas e vítimas da histórica injustiça que se comete no Brasil contra os mestiços. Quando se definiu, em 2005, a demarcação da Raposa / Serra do Sol como área única, muitos “fazendeiros” já haviam abandonado a área por conta da hostilidade de ativistas indígenas.  Somados aos que posteriormente foram retirados pela Polícia Federal, constituíram-se nas primeiras vítimas em grande escala das políticas de etnização do Brasil, e que doravante serviram como modelo para o Ministério da Justiça aplicar em todos os pleitos que envolvesse a demarcação de áreas indígenas no país. Diversos casos no Mato Grosso do Sul seguiram o mesmo caminho. A manifestação de hoje em Brasilia 04/12/2013, tem a ver com os desdobramentos do aconteceu na Raposa /Serra do Sol

Hoje no Estado de Roraima se colhe o resultado dessa política perversa e racista: ampla setorização étnica do Estado, em que um Estado comporta em seu território outros Estados, chamados de Waimiri-Atroari, São Marcos, Raposa / Serra do Sol, Yanomami, Wai-Wai e uma variedade de pequenos cantões, como Tabalascada, Moscow, Pium, Malacacheta e outros tantos; inviabilidade econômica absoluta de toda região que gerou a inviabilidade dos três municípios que incidiram sobre áreas indígenas: Normandia, Uiramutã e Pacaraima;  principalmente empobrecimento da população indígena e consequente êxodo para Boa Vista e para uma vida de absoluta miséria.

Bem… e os “fazendeiros” que apareceram em laudos antropológicos como poderosos donos de terra, maléficos e racistas com os indígenas? Silentes e envelhecidos pelo tempo e desgosto experimentam ainda sua mais cruel dor, a de ser mestiço num país racializado em negros, índios e branco. Como  todo mestiço é considerado pardo e classificado como negro, e não sendo nem negro, nem branco e nem índio, tornaram-se exemplos exânimes do que pode gerar a divisão racial no Brasil: a completa destruição dos mestiços como sujeitos de direito.

Carlos Borges

(Professor e antropólogo)


[1] – O mesmo não ocorria com a agricultura em larga escala: devido a vinda de agricultores do sul e aplicação de técnicas de adubação e irrigação.

 

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Parte ll – A destruição da mestiçagem na região do nordeste do Estado de Roraima: o caso Raposa / Serra do Sol

Compreender a maneira como os grupos tribais relacionavam-se no nordeste de Roraima permite esclarecer como os indígenas chegaram aos níveis de interação atuais numa sociedade feita à base da  mestiçagem nessa região. Certamente, a relação com  o elemento branco impôs novos ritmos sociais que alteraram os costumes tribais e influenciaram na formação de uma sociedade mestiça destruída por iniciativas racistas, que começaram a ser desenhadas nos primórdios do governo FHC e se institucionalizaria, radicalmente, na gestão do PT, com consequências sociais deletérias a indígenas e mestiços. Veja video abaixo.

http://www.youtube.com/watch?v=Mt3xcoOT-Sk

http://www.youtube.com/watch?v=ktRa01IzFcs

http://www.youtube.com/watch?v=6hya04eqJxg

Quero mostrar que pela analise das relações tribais no passado no nordeste de Roraima, pode-se esclarecer muito sobre a maneira como os grupos tribais foram se conformando em unidades interativas voltadas à criação de gado vacum. Por conta de pareceres antropológicos racistas, os mestiços foram excluídos de uma complexa interação que existia na Raposa /Serra do Sol. Começo pela analise da própria dinâmica dos grupos tribais na referida região, eles próprios resultados de um intricado arranjo.

Comecemos.

São várias as menções na história do indigenismo no Brasil sobre enfrentamentos e escaramuças entre índios e índios[1]. Para ficar só num exemplo, o mais notável, no litoral Brasileiro os Tupinambá moviam guerra contra os Tupiniquim e outros povos, obedecendo uma complexa lei militar onde um simples toque no oponente era suficiente para que ele não corresse mais, entregando-se, resignado, ao adversário como prisioneiro, mesmo sabendo que posteriormente seria devorado cerimonialmente. Uma estrutura que é universal, as guerras sempre estimularam o intercâmbio nas culturas tribais numa mesma região. O Nordeste Roraimense segue a mesma característica, seguindo o que Galvão (1960) chamou de “Áreas Culturais”, explicando que as guerras, juntas com o comércio e o casamento impulsionam a troca de muitos traços culturais, sociais, religiosos e mitológicos entre povos tribais. Seguindo esse raciocínio, como eram várias etnias habitando contiguamente o nordeste roraimense[2], é claro que cada qual tinha interesses particulares como roubo de bens materiais, alimentos, motivos religiosos ou mitológicos, rapto de mulher. A guerra tinha o objetivo explícito de submeter oponentes. Característica de muitos povos tribais, a guerra era, às vezes, até contra parentes. Fernandes, no seu estudo sobre os Tupinambá conta que bastava uma cisão, por um desavença qualquer, para um grupo se afastar, tornando-se inimigo daqueles que ficavam, sendo inclusive comidos cerimonialmente se capturados em guerra[3]. As hostilidades podiam aumentar ou diminuir, dependendo da administração das tensões feita pelo grupo. Isso era típico entre todos os Tupi.

No caso de Roraima, quando se olha para o mosaico das etnias, ficam claro aquelas que melhor se saíram desses embates. Das etnias existentes no período dos aldeamentos deram-se melhor os Paraviana, Wapixana, Sapará, Macuxi, Sirianá, Waycá, Maracaná, Parauna. Desses, os Macuxi e os Wapixana sobreviveram. Estes últimos grandemente absorvidos pelos primeiros, tanto que convivem nas aldeias nos dias de hoje. Kock-Grunberg conta em seu diário que os Maracaná eram uma tribo muito temida no Oeste das nascentes do Uraricapará. Inimigos mortais dos Awaké, quase os aniquilaram quando os Sirianá uniram-se a eles por matrimônios[4]. Hamilton Rice, do mesmo modo, quando na sua viagem pelo vale do rio branco, em 1924, faz seguidas referências a enfrentamentos belicosos entre Máku, Maiongong, Sirianá e outros[5].

Mas nenhuma guerra entre as tribos rio branquenses teve a dimensão e a duração que a dos Mucuxi contra os Wapixana. Um professor índio da aldeia do Araçá, contou-me numa ocasião, para explicar o direito à terra que habita, que quando uma aldeia Macuxi guerreava os Wapixana, solicitava ajuda de outras aldeias Macuxi; se vencesse cedia parte da terra à aldeia aliada. Muitos perguntam o motivo dos Macuxi guerrearem os Wapixana. Talvez a memória e a sabedoria do professor sirvam para mostrar que, entre outros motivos estava a posse da terra.

Os Macuxi são originários da bacia do Orinoco, portanto não são originários da bacia do rio Branco. Migrando em pequenas levas, atingiram o rio Branco quando expulsos de seus locais de origem: primeiro pela guerra com os Carib verdadeiros, depois pelo enfrentamento com os espanhóis. Na medida em que desciam iam encontrando e expulsando povos à sua frente. Especula-se que os Taurepang, tenham feito parte da migração empreendida pelos Macuxi, separando-se deles momentos depois e se afirmando como povo, até quando Koch-Grunberg os encontrou espalhados em sete cabanas nas cercanias do monte Roraima[6]. Nesse movimento, os Macuxi foram absorvendo também outros povos, como os Purucotó e os Paravilhana (Parauiana). Na medida em que uma nova cultura era absorvida iam acumulando novos traços culturais, desencadeando processos aculturativos que deram nova face ao ethos tribal, principalmente quanto se soma aos migrantes que chegaram à região em função do Ciclo da Borracha..

Mas a etnia que sempre suscitou temor entre os Macuxi foram os Ingaricó. Koch- Grunberg relata que, na ocasião de sua viagem, a fama de bravos tida pelos Ingaricó pelos índios da região[7]. Na verdade, a denominação Ingaricó decorreu de os Macuxi os considerarem “pessoas do mato” por viverem isolados na região da “mata serrana” mantendo relações de contato mais regularmente com seus semelhantes que, em maior número, viviam na Guiana, do outro lado da fronteira brasileira. Aliás, o isolamento sempre foi característica desse povo; eles mesmos autodenominavam-se Kapon, raramente Ingaricó, só para se diferenciarem dos Pemon, os outros. Vivem atualmente no limite Norte do Estado de Roraima, nas serras limítrofes do Brasil com a Guiana e a Venezuela. Suas residências distribuem-se pelas margens encachoeiradas do rio Cotingo

Esse povo sempre teve rusgas com os Macuxi (claro que hoje fazem parte do índio genérico e coletivo do CIR -Conselho Indígena de Roraima-  e da FUNAI por conta de seus ativismos) e outras etnias vizinhas;  sobreviveu aos muitos de seus ataques e deu-lhe, outrora, o estereótipo de “brabo”. Koch-Krünberg colheu um mito contato por um Taurepang chamado “visita ao céu’, onde se narra o herói passeando sobre cadáveres numa aldeia destruída pelos Ingaricó[8]. A fama de bravos reforçou muitos mitos que alentavam a relação deles com deuses desconhecidos. Os piores “Canaimés” (espíritos opressores e violentos, parte da mitologia dos índios do nordeste de Roraima) segundo os Macuxi diziam ser Ingaricó. Aliás, os Ingaricó são persistentes em dizer que são Kapon e não Ingaricó, por justamente serem os destas etnia os mais perigosos “canaimés” do lado guianense. Por conta disso, muitos Macuxi relutam em aventurar-se em terras Ingaricó, pois ainda hoje acredita-se que os Canaimés lá estão.

Mas há poucas décadas, os Macuxi praticavam o cristianismo à sua maneira, tendo inclusive surgido uma religião sincrética cristã-indígena, que se difundiu entre outros grupos tribais da família lingüistica Carib dando origem ao que ficou conhecido como “Areruia”, corruptela da palavra Aleluia, fundada, consta-se, por um Macuxi das montanhas Kanukú da Savana do rio Rupununi[9].

Os Ingaricó o praticam com maior frequência, sendo o culto conduzido por um sacerdote, chamado por eles de “pastor”. Entre esses, o areruia cobre uma parte considerável das atividades diárias. Uma pequena excursão, por exemplo, é precedida por uma prece dessa religião sincrética. Assim o é também, quando da partida de um visitante ou outras atividades corriqueiras. Todavia, não são todos os habilitados para a incumbência de ser pastor, o que o torna uma personalidade rara e respeitada. No desempenho de sua função, caminha de uma aldeia a outra, chegando a atravessar a fronteira Brasil/Guiana para prestar serviços religiosos entre os Kapon do outro lado. É ele quem estimula também a construção de templos, casas que não se diferenciam daquelas que os índios habitam, a não ser por ser um lugar reservado aos cultos.

Porém na atualidade os indígenas são cristãos: católicos ou protestantes. Os praticantes do catolicismo foram profundamente influenciados pelo ativismo de padres militantes de esquerda, desde os anos 80. Essa influência pode ser verificada nos ideias do CIR www.cir.org.br , cujas propostas políticas assemelham-se muito daquelas do MST. Essa força política ativista foi mobilizada vigorosamente para descaracterizar a mestiçagem na Raposa / Serra do Sol. Não obstante, o ethos mestiço perpassa a cultura indígena em todos os aspectos, inclusive no padrão habitacional, em que as casas indígenas são abastecidas com água e eletricidade. Muitas delas são construídas em alvenaria, com exceção em alguns locais da Serra do Sol, onde vivem os Ingaricó. Muitas aldeias seguem o padrão de vila, com casas “arruadas” e divididas em quadras, aproximando-se muito do modelo urbano de moradia.

O fundamental aqui é compreender que esse ethos é consequência de casamentos interétnicos que gerou na região um modelo de sociedade baseada com forte presença de elementos mestiços, que deixou de existir em nome da etnização dos indígenas da região. A consequência dessa perversa setorização étnica pode ser mensurada no post https://animusdefendendi.wordpress.com/2013/10/26/outra-vez-a-raposa-serra-do-sol/, assunto que ainda continuarei falando.

Bibliografia

Butt, Audrey J. “The Bird of a Religion” in: J. R. Antrpology Institut Great. Bretain Ireland, London, 90 (01), 1960.

Clastres, Peirre. La  Société Contre l’État. Paris: Ed Minuit, 1974.

Fernandes, Florestan.  Função Social da Guerra entre os Tupinambá. São Paulo: Rev. do Museu Nacional, Vol. VI, 1962.

Itatiaia/EDUSP, 1978.

Koch-Grunberg, Theodor. Del Roraima al Orinoco (3 vols.). Caracas-Venezulela: Ediciones del Banco Central de Venezuela, 1981

Laraia, Roque de Barros e Da Matta, Roberto. Índios e Castanheiros. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1967.

Ribeiro de Sampaio, Francisco Xavier. “Relação Geográfica e Histórica do Rio Branco da América Portuguêsa”. In: Revista Trimestral de História e Geographia. Rio de Janeiro, tomo XIII, 1850.

Rice, Hamilton. Exploração na Guiana Brasileira. Belo Horizonte/São Paulo: Ed. Itatiaia/EDUSP, 1978.


[1] – Cf. Fernandes, 1962; Clastres, 1978; Ribeiro, 1982; Laraia e Da Matta, 1967.

[2] – Cf. Koch-Kunberg, 1979, Tomo I; Ribeiro de Sampaio, 1985: 104.

[3] – Fernandes, 1962: passim.

[4] – Id., Ibidem: 188.

[5] – Cf. Rice, 1978.

[6] – Koch-Grünberg, 1979: 109 e segs.

[7] – Id., Ibidem: 77.

[8]  – Id., Ibidem: 76: 85.

[9] – Butt, 1960: 67-69, Apud, 1972: 99.


A destruição da mestiçagem na região do nordeste do Estado de Roraima: o caso Raposa / Serra do Sol – parte I.

Os Portugueses fizeram os primeiros contatos com os índios do vale do rio Branco, simultaneamente à penetração em direção ao rio Negro. As “tropas de resgate” serviram como motivo para os portugueses justificarem as “entradas” em direção ao rio Branco. Tinham a incumbência de resgatar índios capturados em guerra por outros índios mantidos como escravos ou para serem comidos. Aliás, como eram típicas no Brasil Colonial, as “entradas” decorriam da necessidade de suprir a carência de mão-de-obra nas fazendas, mais tarde substituída pelo escravo africano[1], ao mesmo tempo em que serviam para expandir os limites da Colônia.

A história da presença sistemática no Nordeste do Estado de Roraima por não índios, data-se do início do Século XVIII, quando portugueses enviaram para as paragens rio branquenses, tropas de guerra para combater os espanhóis, que então cobiçavam a Amazônia. A decisão de construir o Forte São Joaquim, entre os anos de 1775 e 1776, vinte anos depois de ver cessado as “tropas de resgate”, por determinação da Lei de 6 de Junho de 1755, decorreu da necessidade de guarnecer as possessões portuguesas na Amazônia impedindo eventuais tentativas de entrada de espanhóis para o rio Negro através do rio Branco[2]. O aldeamento dos índios da região foi concomitante à construção do forte; nele foi utilizado mão-de-obra de índios descidos para este fim[3]. Carmo, Santa Isabel, Santa Bárbara no Rio Branco, São Felipe do Tacutu, Conceição no Uraricoera, foram aldeamentos para onde foram levados índios das etnias Paraviana, Uapixana, Sapará, Aturaiú, Uaimará, Amaripá, Pauxiana. Os Caripuna, Macuxi, Uaicá, Securi, Carapari, Sepuru, Umaina, embora fossem etnias conhecidas, ainda não haviam sido reduzidas[4]. A presença de índios Macuxi nos aldeamentos, só se deu a partir de 1789, quando pequenos grupos foram aldeados próximos à Fortaleza São Joaquim. Até essa época, apenas os Taurepang e Caripuna nunca haviam sido aldeados.

Os mais afetados por essa política, parecem ter sido os Wapixana. Antes numerosos na região, em 1887 não somavam mil indivíduos. A explicação para essa elevada assimilação, deveu-se, sobretudo, ao fato de terem rapidamente aprendido a língua do branco, deixando-se convencer a morar nos aldeamentos[5]. Por seu lado, o baixo comparecimento dos Macuxi nos aldeamentos se explica por serem considerados excessivamente arredios e bravos guerreiros. Com os brancos, nunca tiveram uma relação tranquila. A respeito deles, Coudreau escreve que “ são os mais rebeldes à disciplina da civilização. Não têm vontade de ensinar a própria língua aos brancos. Eles são insolentes e insubordinados”[6]. Isso em si explica o grande número de indígenas dessa etnia, se comparado ao dos outros grupos, contanto de três a quatro mil indivíduos, segundo Coudreau[7]. Diniz lembra que esses aldeamentos eram instáveis, com índios constantemente rebelando-se contra os maus tratos recebidos[8]. Os que mais resistiram a política de aldeamento foram os Tapicari e Sapará. Em 1776 registra-se tentativa dos militares em trazer esses índios rebelados para o forte.

Os aldeamentos  na região não chegaram a contar com a presença de religiosos por ter ocorrido num momento posterior às reformas pombalinas. Farage argumenta que isto serve para corrigir um equívoco na historiografia da área, quando se atribui aos carmelitas a formação dos aldeamentos na região. Diz ela, que de fato a Ordem do Carmo tinha planos, por volta dos anos 50 do século XVIII, de estender sua atuação até o rio Branco, porém não teve tempo de efetivá-los pelo fato das missões terem sido secularizadas com a reforma[9].

De maneira geral, os aldeamentos estavam ligados ao interesse dos portugueses pela ocupação do rio Branco. Interesse este que não era apenas econômico, mas, sobretudo estratégico-militar, posto que visavam criar uma barreira humana através do povoamento e assim impedir a penetração espanhola ao rio Branco. A fixação do índio para garantir elemento humano asseguraria o sucesso dos empreendimentos portugueses na região[10].

O gado foi introduzido no vale do rio Branco por iniciativa oficial, num momento que era ainda restrita a entrada de civis e levou  à criação das fazendas nacionais, iniciadas na administração de Lobo D’Almada. A intenção era integrar a região do rio Branco ao restante da economia do Brasil colonial estimulando o fornecimento de carne e couro para a Capitania de São José do Rio Negro. Decorridos  cem anos, o rebanho bovino e parte das terras de campos ficaram sob a administração do Forte São Joaquim, subordinado ao Governo da Capitania do Rio Negro e à Tesouraria da Fazenda[11].  A presença sistemática de não índios na região deu-se somente a partir da segunda metade do século XIX, embora em 1847 seguissem as tentativas de ocupação da região. O litígio entre Inglaterra e Brasil pela posse da área rio branquense ajudou a desestimular a ocupação civil na região da fronteira com a Guiana Britânica, situação que se só se normalizaria após a assinatura do Tratado de 06/11/1901. De grande valor estratégico, ele altera o projeto oficial para a região rescrevendo inclusive o conceito de fronteira: antes, eminentemente militar, após parte de interesses econômicos[12]. Por conta desse interesse, fazendas tocadas por mestiços foram instaladas no lado brasileiro da fronteira com a Guiana, muitas delas permaneceram até a demarcação definitiva da Raposa /Serra sol quando seus proprietários foram considerados posseiros e expulsos pela PF.

Porém, um pouco antes, em fins do século XIX, alguns criatórios haviam sido instalados nas margens direita do rio Branco e do Uraricoera. Dos trinta e dois criatórios existentes, quatro deles sitiavam-se no Tacutu e na margem esquerda do rio Branco[13] . Em 1884-85, Coudreau assinala que a população não índia, vivendo na área, era diminuta: os civilizados totalizam mil indivíduos, constituídos de brancos, mestiços e índios vestidos[14]. A partir do início do século passado, esse contingente elevou-se significativamente; dos 10.000 habitantes de Boa Vista, 3.000 eram brancos ou mestiços[15].  No ano de 1931, o SPI levantou as seguintes tribos existes: Wapixana, Macuxi, Taurepáng, Ingaricó e os quase extintos Siriana. No ano de 1940, grande parte da comunidade indígena foi afetada pela seca, implicando em inúmeras mortes, enquanto se ampliou a população não indígena através de estímulos à migração.

As mudanças econômicas mais significativas na região, só ocorreriam com a criação do Território do Rio Branco, pelo Decreto-Lei No. 5.812 de 13/09/43, proporcionando um maior incremento na entrada de capital patrocinado pelo Estado. Com a transformação do Território do Rio Branco em Território Federal de Roraima, pelo Decreto-Lei No. 4.182 de 13/12/62, implementou-se em definitivo a capitalização do meio rural do Território, sobretudo com a construção da estrada BR-174 ligando Boa Vista a Manaus. Com a promulgação da Constituição de 1988, o Território de Roraima foi elevado à condição de Estado da Federação, com uma população em torno de 300 mil habitantes, composta fundamentalmente por mestiços de origens diversas, principalmente nordestinos, com a prevalência de  maranhenses, acrescido a uma significativa quantidade de mamelucos, mestiços de brancos com indígenas que habitavam as regiões de lavrado e se dedicavam à criação de gado. A demarcação de áreas indígenas nessa região mudaria inteiramente o conjunto de redes sociais associadas a esse tipo de atividade e expulsaria toda a população mestiça que nela vivia, assunto este do próximo post.


[1] – Cf. Fernandes, 1964.

[2] – Farage, 1991: 122-123.

[3] – Id., Ibidem: 123.

[4] – Ribeiro Sampaio, 1850: 251-253, Apud Diniz, 1972:28; Farage, idem: 124-125.

[5] – Amódio et Alii, 1989: 24,

[6] – Coudreau, 1887: 400, Apud Diniz, Idem: 24.

[7] – Id., Ibidem: 24.

[8] – Idem: 29.

[9] – Diniz, 1972: 129.

[10] – Santilli, 1989: 17.

[11] – Id., Ibidem: 19.

[12] – Id., Ibidem: 43.

[13] – Coudreau, 1887: 407, Apud Diniz: 1972: 32.

[14] – Idem: 32.

[15] – Id., Ibidem: 102.

Bibliografia

Amódio, Emmanuele et Alii. índios de Roraima:  Makuxí, Taurepang, Ingarikó, Wapixana. Coleção Histórico-Antropológica No. 1. CEDR – CENTRO DE INFORMAÇÃO DIOCESE DE RORAIMA, 1989.

Coudreau, Henri. La France Équinoxiale. Paris, 1887.

Diniz, Edson Soarea. Os Índios Makuxi do Roraima. Marília: coleção Teses: No. 09, Fac. de Filosofia Ciência e Letras de Marília, 1972.

Farage, Nádia. As Muralhas dos Sertões: os povos indígenas no rio Branco e a colonização. Rio de Janeiro: Paz e Terra; ANPOCS, 1991.

Fernandes, Florestan.  A Integração do Negro à Sociedade de Classes. São Paulo: USP, 1964.

Ribeiro de Sampaio, Franscisco Xavier. “Relação Geográfica e Histórica do Rio Branco da América Portuguêsa”. In: Revista Trimestral de História e Geographia. Rio de Janeiro, tomo XIII, 1850.

Santilli, Paulo. Os Macuxi: história e política no século XX. Campinas: Tese de Mestrado, IFCH.,  1989.

Carlos Borges

(Professor e antropólogo)