A mentira na fúria de Luiz Rufatto.

ImagemParece ter-se tornado unanimidade a ideia que os indígenas brasileiros foram vítimas do maior genocídio da história da humanidade: dos 5000.000 de indígenas encontrados por Cabral teria restado pouco mais de 100.000 no séc. XIX. Mesmo com recontagens (ver: Monteiro, 1994), esse número sempre foi muito elevado. Ainda há debates em torno da metodologia adotada para a contagem (ver: Oliveira e Freire, 2004), mas prevalece o imaginário de um genocídio contra os indígenas brasileiros, conta que nós outros cidadãos devemos silentes pagar.

São tantas dissertações, teses e artigos corroborando esse macabro genocídio, tão pecaminoso que foi apelidado de etnocídio e etnogênese (Monteiro, idem). Mas o pior é quando esse argumento equivocado é dito para o mundo, como foi de Luiz Ruffato na feira de livros de Frankfurt, o maior evento do gênero no mundo (Ver: http://www.oesquema.com.br/trabalhosujo/2013/10/12/um-discurso-historico-luiz-ruffato-na-feira-de-frankfurt-2013.htm). Para todos eles e o Ruffato (para quem existiam 4.000.000 de indígenas no Brasil cabralino), o melhor seria ficarmos em silêncio e aceitarmos os direitos indígenas como incontestáveis mesmos que estes tenham se tornado os maiores latifundiário do Brasil. A ONU, a UNESCO e toda a sorte de institutos da nova ordem mundial tem investido muitos recursos para que antropólogos e ongueiros perpetuem esse imaginário e nos torne reféns de nossa consciência, como quer Rufatto. Os antropólogos são premiados com generosas verbas para pesquisa (sobre índios, claro), viagens para congressos e a certeza que o elemento indígena, além de ser a realização de sua utopia relativista é uma permanente fonte de ganha-pão, principalmente através de laudos e pareceres simpáticos à demarcação de áreas indígenas pelo país; às Ongs, como o ISA, CIMI e congêneres, o prêmio de pertencer a mais pura humanidade, merecendo generosos financiamentos e lugar de destaque no panteão dos direitos humanos. Ao Ruffato, glórias por dizer aquilo que a intelectualidade esquerdista no Brasil gosta de escutar.

Para começar a entender o problema: os Tupi-guarani

De todas as sociedades indígenas do Brasil, os Tupi-guarani mereceram de longe mais atenção. Havia inclusive uma crença de que no Brasil todos os índios eram falantes da língua Tupi-guarani; os outros eram vistos por esses como estrangeiros. Ribeiro (1982: 94) relata que os índios não falantes da língua Tupi eram chamados genericamente de Aimorés ou Botocudos por usarem grandes bodoques nos lóbulos das orelhas e no lábio inferior, ou ainda, como Coroados, por rasparem a cabeça em círculos, três dedos acima da orelha, formando uma espécie de coroa. Genericamente, os índios não falantes do Tupí-Guarani eram conhecidos como Tapuias – palavra que significa bárbaro ou inimigo.

Entre outros motivos, a supervalorização dos Tupi-guarani, deveu-se ao fato de serem os primeiros com quem os portugueses fizeram contatos e com quem também os missionários aprenderam a língua nativa, afeiçoando-se a ela e adotando uma atitude de desdém para aquelas outras línguas que não compreendiam (Melatti, 1983:32). Também, antes mesmo que qualquer pesquisa etnológica se iniciasse no Brasil, muitos cronistas, como Jean de Léry,  André Thevet, Hans Staden, José de Anchieta e outros, deixaram informações variadas sobre costumes, crenças e hábitos exclusivamente sobre os Tupi-guarani, popularizando-os. Igualmente, dado o desconhecimento e falta de informações sobre outros índios do Brasil, os Tupi-guarani foram predominantemente focalizados pela literatura brasileira, como nos poemas de Gonçalves Dias.

Se os índios Tupi-guarani foram os primeiros a entrarem em contato com os europeus, segundo a literatura da época, foram também – seguindo as mesmas fontes – os primeiros a desaparecerem, ainda no começo do século XVIII, quando na faixa costeira do Brasil são mencionadas poucas tribos falantes da língua Tupi.

Mas por que esse abrupto desaparecimento dos Tupi-guarani? Teria havido contra eles um genocídio, exterminando-os totalmente? Se isso aconteceu, quem os exterminou? A verdade é que ninguém sabe. Mas a ideia de que esses índios foram vítimas do maior genocídio da história está consolidada nas citações acadêmicas, livros sobre esse período e, principalmente no imaginário de Ongs e defensores da chamada “causa indígena”.

A ideia de um genocídio Tupi-guarani é tão constante que se tornou uma verdade indiscutível. Clastres (1978) e Gomes (1988), por exemplo, afirmam, peremptoriamente, que quando se deu a penetração europeia no litoral brasileiro, no século XVI, habitava uma área de 350.000 Km2 cerca de 1.500.000 índios Tupi-guarani. Esses dois antropólogos não utilizam nenhuma fonte primária para tal afirmação, somente corrobora um imaginário acadêmico sobre o assunto, que começou a se constituir, principalmente através dos estudos feitos em meados do séc. passado pelos primeiros antropólogos (ver; http://www.periodicos.ufpa.br/index.php/amazonica/article/viewFile/133/221. Esse repetiu-se tantas vezes nas gerações posteriores de antropólogo que se tornou verdade, a ponto de ninguém contestá-lo. Mas se não sabemos nem quantas pessoas vieram com Cabral, como saber a quantidade de indígena do Brasil de outrora? Ora, os indígenas viviam dispersos pelas matas, na ocasião selvagens e inóspitas, como então conta-los? Bem, foram os padres das missões, pode-se supor. Mas as missões, marcas da presença definitiva dos jesuítas em terras americanas, passaram efetivamente a serem implantadas somente no começo do século XVII, quando o rei de Espanha concedeu à Companhia de Jesus o direito da conquista espiritual de 150.000 índios guarani da província de Guaíra. Foram expulsas do Brasil por Marquês de Pombal, e delas sobraram poucos registros. Então, simplesmente esses índios nunca, à época, foram contatos. Os 5.000.000 ou 1.500.000, só no litoral são números decorrentes de chute. Por quê? Para validar, pela comoção que esse argumento provoca, a demarcação de centenas de latifúndios indígenas pelo Brasil afora.

Mas e os outros efeitos?

O curioso é que, embora existam outras possibilidades de explicar o declínio populacional indígena (não obstante as adversidades geradas sobre elas em decorrência do contato), elas não são mencionadas, e quando são é para reforçar o genocídio:

… a história demográfica dos índios desde 1500 não deve  ser compreendida apenas como uma sucessão de doenças, massacres e violências diversas. A dispersão populacional, demonstrada no mapa etno-histórico de Nimuendaju, possibilitou diversas reações dos povos indígenas ao contato com os colonizadores, entre as quais a promoção de grandes deslocamentos para escapar à escravidão e às conseqüências das moléstias trazidas pelos europeus (Oliveira e Freire, 2004, p. 24).

A primeira delas diz sobre a incorporação do elemento indígena à sociedade brasileira através de casamentos interétnicos, importante para caracterizar o povo brasileiro como resultado de mistura étnica, informações que constam  no Diretório dos Índios, de 1755 e até mesmo em Darcy Ribeiro (Ribeiro, 1995). O problema é que informação gerou uma infinidade de teses sobre relações interétnicas, justamente para negar essa incorporação e inventar categorias de índios menores, como ressurgidos ou emergentes (ver: http://pib.socioambiental.org/pt/c/no-brasil-atual/quem-sao/Indios-emergentes).

A segunda  é o  fato de os índios, principalmente os Tupi-guarani, brigarem entre si e se comerem mutuamente, como citam fontes seiscentistas, como Hans Staden, Jean de Léry e André Thevet, o primeiro um aventureiro alemão, os outros dois, missionários franceses:

“Sobre ti caia toda a desgraça, tu és meu pasto. Quero ainda hoje moer-te a cabeça. Aqui estou para vingar em ti a morte de meus amigos. Tua carne hoje, ainda antes que o sol se deite, há de ser meu manjar” (Hans Staden, 1974: 176).

“Não sei o que vai acontecer no futuro, depois que pai Colá chegou aqui já não comemos nem a metade de nossos prisioneiros” (Léry, 1980: 145).

“Depois dessa cena levaram-nos os selvagens para que repousássemos em redes de algodão, mas antes de começarem a dormir já os ouvimos cantar todos juntos que para se vingarem de seus inimigos deviam aprisionar e comer o maior número possível. Eis um belo exemplo da inconstância desse povo e da natureza corrupta do homem (Léry, 1980: 168).

“A História não nos fala de nenhuma outra nação que tenha sido tão bárbara e que tenha tratado seus inimigos com uma tão excessiva crueldade. Sabe-se apenas, de acordo com os escritos de Josefo, que houve algo semelhante em Jerusalém quando os romanos ali chegaram. Após terem seus habitantes dado cabo de todos os víveres, a terrível fome que se seguiu obrigou as mães a matar seus filhos e devorá-los! Conhecem-se também os antropófagos da Cítia, que se alimentam de carne humana, assim como estes que ora descrevo” (Thevet, 1575, 132-133).

Mas, cuidado! Aqui se precisa uma ressalva: baseando nessas mesmas (e outras) fontes, antropofagizar-se não é desvio de humanidade, segundo entendeu Florestan Fernandes (2006) , mas uma ritualização de beleza e leveza estética; ou ainda, como pensam Oliveira e Freire (2004), é estratégia discursiva do colonizador para justificar a conquista e integrar o elemento indígena ao trabalho colonial.

A terceira é o fenômeno da migração entre os Tupi-guarani que está relacionado á busca da “Terra sem Males”, localizada em local incerto no leste ou oeste, ou ainda ao zênite. Curt Nimuendaju (1987), etnólogo alemão que viveu entre os índios Apapocúva, conta que em princípio do séc. XIX começou entre os Guarani da margem direita do baixo Iguatemi, um movimento religioso que até hoje não terminou. Trata-se de “pajés, (que) inspirados por visões e sonhos, constituíram-se em profetas do fim iminente do mundo; juntaram a sua volta adeptos em maior ou menor número, e partiram em meio a danças rituais e cantos mágicos, em busca da `Terra Sem Mal`; (…) Somente deste modo esperavam poder escapar à perdição ameaçadora” (pp. 8-9).

A procura pela “Terra sem Males” mantém estreita relação com antigos mitos a respeito da destruição do universo. Até os dias de hoje os Tupi-guarani sobreviventes encontram-se ainda persuadidos pela destruição da terra. Feiticeiros, em seus sonhos e visões, quando fazem pressentir a iminência da aproximação do perigo, buscam  se escapar reunindo em torno de si e sob sua direção um conjunto de índios que se entregam às danças e ao jejum para obter revelações que indiquem o caminho a seguir. Este fenômeno é importante para se compreender a interiorização dos índios Tupi-guarani pelo interior do Brasil, embora Oliveira e Freire (idem) pensem o contrário:

A dispersão populacional, demonstrada no mapa etno-histórico de Nimuendaju, possibilitou diversas reações dos povos indígenas ao contato com os colonizadores, entre as quais a promoção de grandes deslocamentos para escapar à escravidão e às consequências das moléstias trazidas pelos europeus (p.24).

Conjugados, esses fatores deveriam também ser levados em conta para se compreender o que, no Brasil, é chamado de genocídio contra os índios. O resto é conversa de antropólogos habilidosos em distorcer fatos, criar trevas, para quem o índio é insubstituível fonte de sustento e delírio de Robin Hood, doença que afeta a cabeça de gente como Luiz Ruffato.

Bibliografia

Clastres, Pierre. A Sociedade Contra o Estado. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.

Gomes, M. Pereira. Índios do Brasil. Vozes, 1988.

Fernandes, Florestan. A função social da guerra na sociedade Tupinambá. Ed. Globo. 2006.

Hans Staden. Duas viagens ao Brasil, 1974.

Léry, Jean de. Viagem à terra do Brasil. Edusp. 1980.

Malatti, J. Cezar. Índios do Brasil. Edusp. 1983.

Monteiro, J.M. A Dança dos Números: a população indígena do Brasil desde 1500. Tempo e Presença, Rio de Janeiro RJ, n. 271, p. 17-18, 1994.

Nimuendajú, Curt.  As lendas da criação e distruição do mundo como fundamentos da religião dos Apapocúva-Guaraní, Hucitec, 1987.

Oliveira, J. P. e Freire, C. A. A Presença Indígena na Formação do Brasil. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade; LACED/Museu Nacional, 2006.

Ribeiro, Darcy. Utopia Selvagem. Ed. Leitura, 1982.

____________. O Povo Brasileiro: A formação e o sentido de Brasil. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Thevet, A. Cosmographie Universelle, 1575.

Carlos Borges

(Antropólogo e professor)

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