Desmestiçagem na Raposa / Serra do Sol- última parte

Aproveitando o dia de ativismo indígena em Brasília para demarcação de mais terras, aproveito o clima para concluir minha análise em torno da Raposa / Serra do Sol.

Sabe-se que em situações interétnicas as diferenças de classe tornam-se menos importantes que as diferenças étnicas, como, por exemplo, o caso dos negros contra o apartheid, os movimentos civis contra o racismo nos EUA ou mesmo serve como indicação o nacionalismo quebequense. Em geral, os grupos envolvidos chegam a eliminar suas divergências para se antepor ao objeto de sua opressão. Porém, essa referência nunca foi acionada no caso da demarcação da Raposa / Serra do Sol, por lá ter se procedido uma verdadeira limpeza étnica de eliminação dos direitos e humilhação física e existencial sobre os mestiços que viviam na área. Nenhuma ong, nenhum partido político, nenhuma organização humanitários saiu em defesa desses que ocupavam legitimamente a região, que pejorativamente foram chamados de “fazendeiros” e expulsos para Boa Vista, trazendo tão só humilhantes valores indenizatórios, verdadeiras esmolas dadas pelas benfeitorias de boa fé.

Chamados de fazendeiros, nada mais eram que simples criadores habitantes de residências precárias e, invariavelmente, analfabetos. A maneira como criavam gado em pastagens extensivas, e os parcos recursos que o lavrado permitia explorar devido a pobreza do solo, transformavam-no em pecuaristas rústicos e descapitalizados, com uma média de 200 reses do tipo pé-duro, adaptadas ao clima hostil do lavrado[1]. O dinheiro advindo da venda de carne ao mercado de Boa Vista, não lhes garantia o suficiente para contratar mão-de-obra para os serviços nas “fazendas”. O trabalho nelas tinha por isso base familiar, exceção feita a alguns vaqueiros que se empregam  com o compromisso de  receber o pagamento na forma de reses.  Por  conta  disso,  nunca conseguiram  acumular o suficiente   para   expandir  e diversificar suas  atividades;  ao contrário,  a tendência  foi  sua  descapitalização   lenta e   gradual, forçando-os a ter outra atividade na cidade, como motoristas, zeladores ou outras profissões de baixa qualificação. Essa população era formada, em sua maioria, por mamelucos, filhos ou netos de mães indígenas.

No nordeste de Roraima, esta situação gerou um fator social bastante específico. Como o negócio com a pecuária era a única maneira de sobrevivência para esse chamado “fazendeiro”, sem nenhuma vocação para a agricultura e considerando-se que para tal ele necessitaria de no mínimo 10 ha para cada gado dada à pobreza do solo do lavrado, ele se tornaria um obstinado em relação à permanência de suas terras. Sua relação com índio passou ser, então, moldada sobre dois pontos de vista básicos: um que o levou a se aproximar dos índios para manter com ele relações de convivência mútua, por ser parente ou para ser  mão-de-obra para as tarefas nas “fazendas”; outra que o distanciou do indígena por conta das garantias constitucionais a eles assegurados, somado ao conceito de imemorialidade e da suposição de sua posse pretérita. A suposição de direito da posse indígena sobre a terra era a negação do mesmo direito ao mestiço (coube aos antropólogos  da USP, Unesp, Unicamp e UnB, depois crias insólitas geradas no curso de antropologia daqui da UFRR, e seus bem pagos laudos, transforma-los em fazendeiros e opressores históricos de indígenas). Para os “fazendeiros”, a primeira ação separou índios amigos e inimigos; a segunda gerou absoluta insegurança jurídica decorrente da negação de direitos sobre o uso da terra, assegurando-lhe a humilhante indenização pela chamada “benfeitorias de boa fé”. Os amigos geralmente eram parentes envolvidos na lida com o gado, os inimigos assim eram pela hostilidade ativista através de roubo de gado, invasões e instalação de casas permanentes nos campos de pastagens e queima do campo. O CIR – Conselho Indígena de Roraima, ligado a Ongs e ao CIMI coordenava, em toda região, esse tipo de ativismo terrorista.

Foram ações que deixaram os “fazendeiros” imobilizados, dada a dificuldade em entender as motivações do conflito e a partir dela manifestar reações organizadas contra ele. Com isso, tornaram-se para a FUNAI simples desintrusados, palavra que carrega em si o sentido de um ser sem direito. O pouco da batalha jurídica sobre o caso foi financiada por produtos de arroz em larga escala, brancos do sul do Brasil, com capital suficiente para contratar e pagar competentes bancas advocatícias. Os “fazendeiros” quase sempre ficaram reféns de advogados oportunistas que lhes arrancaram até a última gota de suor.

Esse quadro gerou a seguinte situação: havia os indígenas ativistas apoiados por poderosas ongs, antropólogos, ambientalistas e uma plêiade de simpatizantes da “causa” espalhados pelo mundo. Havia ainda os indígenas, geralmente evangélicos, que compunham ações para uma existência comum entre eles e os ditos “fazendeiros”, abrigados na SODIURR, organização aliada do governo do Estado de Roraima. No lado mais frágil desse quadro estavam eles, os ditos “fazendeiros”, vítimas de políticos interessados em seus votos, vítimas de advogados oportunistas e vítimas da histórica injustiça que se comete no Brasil contra os mestiços. Quando se definiu, em 2005, a demarcação da Raposa / Serra do Sol como área única, muitos “fazendeiros” já haviam abandonado a área por conta da hostilidade de ativistas indígenas.  Somados aos que posteriormente foram retirados pela Polícia Federal, constituíram-se nas primeiras vítimas em grande escala das políticas de etnização do Brasil, e que doravante serviram como modelo para o Ministério da Justiça aplicar em todos os pleitos que envolvesse a demarcação de áreas indígenas no país. Diversos casos no Mato Grosso do Sul seguiram o mesmo caminho. A manifestação de hoje em Brasilia 04/12/2013, tem a ver com os desdobramentos do aconteceu na Raposa /Serra do Sol

Hoje no Estado de Roraima se colhe o resultado dessa política perversa e racista: ampla setorização étnica do Estado, em que um Estado comporta em seu território outros Estados, chamados de Waimiri-Atroari, São Marcos, Raposa / Serra do Sol, Yanomami, Wai-Wai e uma variedade de pequenos cantões, como Tabalascada, Moscow, Pium, Malacacheta e outros tantos; inviabilidade econômica absoluta de toda região que gerou a inviabilidade dos três municípios que incidiram sobre áreas indígenas: Normandia, Uiramutã e Pacaraima;  principalmente empobrecimento da população indígena e consequente êxodo para Boa Vista e para uma vida de absoluta miséria.

Bem… e os “fazendeiros” que apareceram em laudos antropológicos como poderosos donos de terra, maléficos e racistas com os indígenas? Silentes e envelhecidos pelo tempo e desgosto experimentam ainda sua mais cruel dor, a de ser mestiço num país racializado em negros, índios e branco. Como  todo mestiço é considerado pardo e classificado como negro, e não sendo nem negro, nem branco e nem índio, tornaram-se exemplos exânimes do que pode gerar a divisão racial no Brasil: a completa destruição dos mestiços como sujeitos de direito.

Carlos Borges

(Professor e antropólogo)


[1] – O mesmo não ocorria com a agricultura em larga escala: devido a vinda de agricultores do sul e aplicação de técnicas de adubação e irrigação.

 


Parte ll – A destruição da mestiçagem na região do nordeste do Estado de Roraima: o caso Raposa / Serra do Sol

Compreender a maneira como os grupos tribais relacionavam-se no nordeste de Roraima permite esclarecer como os indígenas chegaram aos níveis de interação atuais numa sociedade feita à base da  mestiçagem nessa região. Certamente, a relação com  o elemento branco impôs novos ritmos sociais que alteraram os costumes tribais e influenciaram na formação de uma sociedade mestiça destruída por iniciativas racistas, que começaram a ser desenhadas nos primórdios do governo FHC e se institucionalizaria, radicalmente, na gestão do PT, com consequências sociais deletérias a indígenas e mestiços. Veja video abaixo.

http://www.youtube.com/watch?v=Mt3xcoOT-Sk

http://www.youtube.com/watch?v=ktRa01IzFcs

http://www.youtube.com/watch?v=6hya04eqJxg

Quero mostrar que pela analise das relações tribais no passado no nordeste de Roraima, pode-se esclarecer muito sobre a maneira como os grupos tribais foram se conformando em unidades interativas voltadas à criação de gado vacum. Por conta de pareceres antropológicos racistas, os mestiços foram excluídos de uma complexa interação que existia na Raposa /Serra do Sol. Começo pela analise da própria dinâmica dos grupos tribais na referida região, eles próprios resultados de um intricado arranjo.

Comecemos.

São várias as menções na história do indigenismo no Brasil sobre enfrentamentos e escaramuças entre índios e índios[1]. Para ficar só num exemplo, o mais notável, no litoral Brasileiro os Tupinambá moviam guerra contra os Tupiniquim e outros povos, obedecendo uma complexa lei militar onde um simples toque no oponente era suficiente para que ele não corresse mais, entregando-se, resignado, ao adversário como prisioneiro, mesmo sabendo que posteriormente seria devorado cerimonialmente. Uma estrutura que é universal, as guerras sempre estimularam o intercâmbio nas culturas tribais numa mesma região. O Nordeste Roraimense segue a mesma característica, seguindo o que Galvão (1960) chamou de “Áreas Culturais”, explicando que as guerras, juntas com o comércio e o casamento impulsionam a troca de muitos traços culturais, sociais, religiosos e mitológicos entre povos tribais. Seguindo esse raciocínio, como eram várias etnias habitando contiguamente o nordeste roraimense[2], é claro que cada qual tinha interesses particulares como roubo de bens materiais, alimentos, motivos religiosos ou mitológicos, rapto de mulher. A guerra tinha o objetivo explícito de submeter oponentes. Característica de muitos povos tribais, a guerra era, às vezes, até contra parentes. Fernandes, no seu estudo sobre os Tupinambá conta que bastava uma cisão, por um desavença qualquer, para um grupo se afastar, tornando-se inimigo daqueles que ficavam, sendo inclusive comidos cerimonialmente se capturados em guerra[3]. As hostilidades podiam aumentar ou diminuir, dependendo da administração das tensões feita pelo grupo. Isso era típico entre todos os Tupi.

No caso de Roraima, quando se olha para o mosaico das etnias, ficam claro aquelas que melhor se saíram desses embates. Das etnias existentes no período dos aldeamentos deram-se melhor os Paraviana, Wapixana, Sapará, Macuxi, Sirianá, Waycá, Maracaná, Parauna. Desses, os Macuxi e os Wapixana sobreviveram. Estes últimos grandemente absorvidos pelos primeiros, tanto que convivem nas aldeias nos dias de hoje. Kock-Grunberg conta em seu diário que os Maracaná eram uma tribo muito temida no Oeste das nascentes do Uraricapará. Inimigos mortais dos Awaké, quase os aniquilaram quando os Sirianá uniram-se a eles por matrimônios[4]. Hamilton Rice, do mesmo modo, quando na sua viagem pelo vale do rio branco, em 1924, faz seguidas referências a enfrentamentos belicosos entre Máku, Maiongong, Sirianá e outros[5].

Mas nenhuma guerra entre as tribos rio branquenses teve a dimensão e a duração que a dos Mucuxi contra os Wapixana. Um professor índio da aldeia do Araçá, contou-me numa ocasião, para explicar o direito à terra que habita, que quando uma aldeia Macuxi guerreava os Wapixana, solicitava ajuda de outras aldeias Macuxi; se vencesse cedia parte da terra à aldeia aliada. Muitos perguntam o motivo dos Macuxi guerrearem os Wapixana. Talvez a memória e a sabedoria do professor sirvam para mostrar que, entre outros motivos estava a posse da terra.

Os Macuxi são originários da bacia do Orinoco, portanto não são originários da bacia do rio Branco. Migrando em pequenas levas, atingiram o rio Branco quando expulsos de seus locais de origem: primeiro pela guerra com os Carib verdadeiros, depois pelo enfrentamento com os espanhóis. Na medida em que desciam iam encontrando e expulsando povos à sua frente. Especula-se que os Taurepang, tenham feito parte da migração empreendida pelos Macuxi, separando-se deles momentos depois e se afirmando como povo, até quando Koch-Grunberg os encontrou espalhados em sete cabanas nas cercanias do monte Roraima[6]. Nesse movimento, os Macuxi foram absorvendo também outros povos, como os Purucotó e os Paravilhana (Parauiana). Na medida em que uma nova cultura era absorvida iam acumulando novos traços culturais, desencadeando processos aculturativos que deram nova face ao ethos tribal, principalmente quanto se soma aos migrantes que chegaram à região em função do Ciclo da Borracha..

Mas a etnia que sempre suscitou temor entre os Macuxi foram os Ingaricó. Koch- Grunberg relata que, na ocasião de sua viagem, a fama de bravos tida pelos Ingaricó pelos índios da região[7]. Na verdade, a denominação Ingaricó decorreu de os Macuxi os considerarem “pessoas do mato” por viverem isolados na região da “mata serrana” mantendo relações de contato mais regularmente com seus semelhantes que, em maior número, viviam na Guiana, do outro lado da fronteira brasileira. Aliás, o isolamento sempre foi característica desse povo; eles mesmos autodenominavam-se Kapon, raramente Ingaricó, só para se diferenciarem dos Pemon, os outros. Vivem atualmente no limite Norte do Estado de Roraima, nas serras limítrofes do Brasil com a Guiana e a Venezuela. Suas residências distribuem-se pelas margens encachoeiradas do rio Cotingo

Esse povo sempre teve rusgas com os Macuxi (claro que hoje fazem parte do índio genérico e coletivo do CIR -Conselho Indígena de Roraima-  e da FUNAI por conta de seus ativismos) e outras etnias vizinhas;  sobreviveu aos muitos de seus ataques e deu-lhe, outrora, o estereótipo de “brabo”. Koch-Krünberg colheu um mito contato por um Taurepang chamado “visita ao céu’, onde se narra o herói passeando sobre cadáveres numa aldeia destruída pelos Ingaricó[8]. A fama de bravos reforçou muitos mitos que alentavam a relação deles com deuses desconhecidos. Os piores “Canaimés” (espíritos opressores e violentos, parte da mitologia dos índios do nordeste de Roraima) segundo os Macuxi diziam ser Ingaricó. Aliás, os Ingaricó são persistentes em dizer que são Kapon e não Ingaricó, por justamente serem os destas etnia os mais perigosos “canaimés” do lado guianense. Por conta disso, muitos Macuxi relutam em aventurar-se em terras Ingaricó, pois ainda hoje acredita-se que os Canaimés lá estão.

Mas há poucas décadas, os Macuxi praticavam o cristianismo à sua maneira, tendo inclusive surgido uma religião sincrética cristã-indígena, que se difundiu entre outros grupos tribais da família lingüistica Carib dando origem ao que ficou conhecido como “Areruia”, corruptela da palavra Aleluia, fundada, consta-se, por um Macuxi das montanhas Kanukú da Savana do rio Rupununi[9].

Os Ingaricó o praticam com maior frequência, sendo o culto conduzido por um sacerdote, chamado por eles de “pastor”. Entre esses, o areruia cobre uma parte considerável das atividades diárias. Uma pequena excursão, por exemplo, é precedida por uma prece dessa religião sincrética. Assim o é também, quando da partida de um visitante ou outras atividades corriqueiras. Todavia, não são todos os habilitados para a incumbência de ser pastor, o que o torna uma personalidade rara e respeitada. No desempenho de sua função, caminha de uma aldeia a outra, chegando a atravessar a fronteira Brasil/Guiana para prestar serviços religiosos entre os Kapon do outro lado. É ele quem estimula também a construção de templos, casas que não se diferenciam daquelas que os índios habitam, a não ser por ser um lugar reservado aos cultos.

Porém na atualidade os indígenas são cristãos: católicos ou protestantes. Os praticantes do catolicismo foram profundamente influenciados pelo ativismo de padres militantes de esquerda, desde os anos 80. Essa influência pode ser verificada nos ideias do CIR www.cir.org.br , cujas propostas políticas assemelham-se muito daquelas do MST. Essa força política ativista foi mobilizada vigorosamente para descaracterizar a mestiçagem na Raposa / Serra do Sol. Não obstante, o ethos mestiço perpassa a cultura indígena em todos os aspectos, inclusive no padrão habitacional, em que as casas indígenas são abastecidas com água e eletricidade. Muitas delas são construídas em alvenaria, com exceção em alguns locais da Serra do Sol, onde vivem os Ingaricó. Muitas aldeias seguem o padrão de vila, com casas “arruadas” e divididas em quadras, aproximando-se muito do modelo urbano de moradia.

O fundamental aqui é compreender que esse ethos é consequência de casamentos interétnicos que gerou na região um modelo de sociedade baseada com forte presença de elementos mestiços, que deixou de existir em nome da etnização dos indígenas da região. A consequência dessa perversa setorização étnica pode ser mensurada no post https://animusdefendendi.wordpress.com/2013/10/26/outra-vez-a-raposa-serra-do-sol/, assunto que ainda continuarei falando.

Bibliografia

Butt, Audrey J. “The Bird of a Religion” in: J. R. Antrpology Institut Great. Bretain Ireland, London, 90 (01), 1960.

Clastres, Peirre. La  Société Contre l’État. Paris: Ed Minuit, 1974.

Fernandes, Florestan.  Função Social da Guerra entre os Tupinambá. São Paulo: Rev. do Museu Nacional, Vol. VI, 1962.

Itatiaia/EDUSP, 1978.

Koch-Grunberg, Theodor. Del Roraima al Orinoco (3 vols.). Caracas-Venezulela: Ediciones del Banco Central de Venezuela, 1981

Laraia, Roque de Barros e Da Matta, Roberto. Índios e Castanheiros. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1967.

Ribeiro de Sampaio, Francisco Xavier. “Relação Geográfica e Histórica do Rio Branco da América Portuguêsa”. In: Revista Trimestral de História e Geographia. Rio de Janeiro, tomo XIII, 1850.

Rice, Hamilton. Exploração na Guiana Brasileira. Belo Horizonte/São Paulo: Ed. Itatiaia/EDUSP, 1978.


[1] – Cf. Fernandes, 1962; Clastres, 1978; Ribeiro, 1982; Laraia e Da Matta, 1967.

[2] – Cf. Koch-Kunberg, 1979, Tomo I; Ribeiro de Sampaio, 1985: 104.

[3] – Fernandes, 1962: passim.

[4] – Id., Ibidem: 188.

[5] – Cf. Rice, 1978.

[6] – Koch-Grünberg, 1979: 109 e segs.

[7] – Id., Ibidem: 77.

[8]  – Id., Ibidem: 76: 85.

[9] – Butt, 1960: 67-69, Apud, 1972: 99.


A destruição da mestiçagem na região do nordeste do Estado de Roraima: o caso Raposa / Serra do Sol – parte I.

Os Portugueses fizeram os primeiros contatos com os índios do vale do rio Branco, simultaneamente à penetração em direção ao rio Negro. As “tropas de resgate” serviram como motivo para os portugueses justificarem as “entradas” em direção ao rio Branco. Tinham a incumbência de resgatar índios capturados em guerra por outros índios mantidos como escravos ou para serem comidos. Aliás, como eram típicas no Brasil Colonial, as “entradas” decorriam da necessidade de suprir a carência de mão-de-obra nas fazendas, mais tarde substituída pelo escravo africano[1], ao mesmo tempo em que serviam para expandir os limites da Colônia.

A história da presença sistemática no Nordeste do Estado de Roraima por não índios, data-se do início do Século XVIII, quando portugueses enviaram para as paragens rio branquenses, tropas de guerra para combater os espanhóis, que então cobiçavam a Amazônia. A decisão de construir o Forte São Joaquim, entre os anos de 1775 e 1776, vinte anos depois de ver cessado as “tropas de resgate”, por determinação da Lei de 6 de Junho de 1755, decorreu da necessidade de guarnecer as possessões portuguesas na Amazônia impedindo eventuais tentativas de entrada de espanhóis para o rio Negro através do rio Branco[2]. O aldeamento dos índios da região foi concomitante à construção do forte; nele foi utilizado mão-de-obra de índios descidos para este fim[3]. Carmo, Santa Isabel, Santa Bárbara no Rio Branco, São Felipe do Tacutu, Conceição no Uraricoera, foram aldeamentos para onde foram levados índios das etnias Paraviana, Uapixana, Sapará, Aturaiú, Uaimará, Amaripá, Pauxiana. Os Caripuna, Macuxi, Uaicá, Securi, Carapari, Sepuru, Umaina, embora fossem etnias conhecidas, ainda não haviam sido reduzidas[4]. A presença de índios Macuxi nos aldeamentos, só se deu a partir de 1789, quando pequenos grupos foram aldeados próximos à Fortaleza São Joaquim. Até essa época, apenas os Taurepang e Caripuna nunca haviam sido aldeados.

Os mais afetados por essa política, parecem ter sido os Wapixana. Antes numerosos na região, em 1887 não somavam mil indivíduos. A explicação para essa elevada assimilação, deveu-se, sobretudo, ao fato de terem rapidamente aprendido a língua do branco, deixando-se convencer a morar nos aldeamentos[5]. Por seu lado, o baixo comparecimento dos Macuxi nos aldeamentos se explica por serem considerados excessivamente arredios e bravos guerreiros. Com os brancos, nunca tiveram uma relação tranquila. A respeito deles, Coudreau escreve que “ são os mais rebeldes à disciplina da civilização. Não têm vontade de ensinar a própria língua aos brancos. Eles são insolentes e insubordinados”[6]. Isso em si explica o grande número de indígenas dessa etnia, se comparado ao dos outros grupos, contanto de três a quatro mil indivíduos, segundo Coudreau[7]. Diniz lembra que esses aldeamentos eram instáveis, com índios constantemente rebelando-se contra os maus tratos recebidos[8]. Os que mais resistiram a política de aldeamento foram os Tapicari e Sapará. Em 1776 registra-se tentativa dos militares em trazer esses índios rebelados para o forte.

Os aldeamentos  na região não chegaram a contar com a presença de religiosos por ter ocorrido num momento posterior às reformas pombalinas. Farage argumenta que isto serve para corrigir um equívoco na historiografia da área, quando se atribui aos carmelitas a formação dos aldeamentos na região. Diz ela, que de fato a Ordem do Carmo tinha planos, por volta dos anos 50 do século XVIII, de estender sua atuação até o rio Branco, porém não teve tempo de efetivá-los pelo fato das missões terem sido secularizadas com a reforma[9].

De maneira geral, os aldeamentos estavam ligados ao interesse dos portugueses pela ocupação do rio Branco. Interesse este que não era apenas econômico, mas, sobretudo estratégico-militar, posto que visavam criar uma barreira humana através do povoamento e assim impedir a penetração espanhola ao rio Branco. A fixação do índio para garantir elemento humano asseguraria o sucesso dos empreendimentos portugueses na região[10].

O gado foi introduzido no vale do rio Branco por iniciativa oficial, num momento que era ainda restrita a entrada de civis e levou  à criação das fazendas nacionais, iniciadas na administração de Lobo D’Almada. A intenção era integrar a região do rio Branco ao restante da economia do Brasil colonial estimulando o fornecimento de carne e couro para a Capitania de São José do Rio Negro. Decorridos  cem anos, o rebanho bovino e parte das terras de campos ficaram sob a administração do Forte São Joaquim, subordinado ao Governo da Capitania do Rio Negro e à Tesouraria da Fazenda[11].  A presença sistemática de não índios na região deu-se somente a partir da segunda metade do século XIX, embora em 1847 seguissem as tentativas de ocupação da região. O litígio entre Inglaterra e Brasil pela posse da área rio branquense ajudou a desestimular a ocupação civil na região da fronteira com a Guiana Britânica, situação que se só se normalizaria após a assinatura do Tratado de 06/11/1901. De grande valor estratégico, ele altera o projeto oficial para a região rescrevendo inclusive o conceito de fronteira: antes, eminentemente militar, após parte de interesses econômicos[12]. Por conta desse interesse, fazendas tocadas por mestiços foram instaladas no lado brasileiro da fronteira com a Guiana, muitas delas permaneceram até a demarcação definitiva da Raposa /Serra sol quando seus proprietários foram considerados posseiros e expulsos pela PF.

Porém, um pouco antes, em fins do século XIX, alguns criatórios haviam sido instalados nas margens direita do rio Branco e do Uraricoera. Dos trinta e dois criatórios existentes, quatro deles sitiavam-se no Tacutu e na margem esquerda do rio Branco[13] . Em 1884-85, Coudreau assinala que a população não índia, vivendo na área, era diminuta: os civilizados totalizam mil indivíduos, constituídos de brancos, mestiços e índios vestidos[14]. A partir do início do século passado, esse contingente elevou-se significativamente; dos 10.000 habitantes de Boa Vista, 3.000 eram brancos ou mestiços[15].  No ano de 1931, o SPI levantou as seguintes tribos existes: Wapixana, Macuxi, Taurepáng, Ingaricó e os quase extintos Siriana. No ano de 1940, grande parte da comunidade indígena foi afetada pela seca, implicando em inúmeras mortes, enquanto se ampliou a população não indígena através de estímulos à migração.

As mudanças econômicas mais significativas na região, só ocorreriam com a criação do Território do Rio Branco, pelo Decreto-Lei No. 5.812 de 13/09/43, proporcionando um maior incremento na entrada de capital patrocinado pelo Estado. Com a transformação do Território do Rio Branco em Território Federal de Roraima, pelo Decreto-Lei No. 4.182 de 13/12/62, implementou-se em definitivo a capitalização do meio rural do Território, sobretudo com a construção da estrada BR-174 ligando Boa Vista a Manaus. Com a promulgação da Constituição de 1988, o Território de Roraima foi elevado à condição de Estado da Federação, com uma população em torno de 300 mil habitantes, composta fundamentalmente por mestiços de origens diversas, principalmente nordestinos, com a prevalência de  maranhenses, acrescido a uma significativa quantidade de mamelucos, mestiços de brancos com indígenas que habitavam as regiões de lavrado e se dedicavam à criação de gado. A demarcação de áreas indígenas nessa região mudaria inteiramente o conjunto de redes sociais associadas a esse tipo de atividade e expulsaria toda a população mestiça que nela vivia, assunto este do próximo post.


[1] – Cf. Fernandes, 1964.

[2] – Farage, 1991: 122-123.

[3] – Id., Ibidem: 123.

[4] – Ribeiro Sampaio, 1850: 251-253, Apud Diniz, 1972:28; Farage, idem: 124-125.

[5] – Amódio et Alii, 1989: 24,

[6] – Coudreau, 1887: 400, Apud Diniz, Idem: 24.

[7] – Id., Ibidem: 24.

[8] – Idem: 29.

[9] – Diniz, 1972: 129.

[10] – Santilli, 1989: 17.

[11] – Id., Ibidem: 19.

[12] – Id., Ibidem: 43.

[13] – Coudreau, 1887: 407, Apud Diniz: 1972: 32.

[14] – Idem: 32.

[15] – Id., Ibidem: 102.

Bibliografia

Amódio, Emmanuele et Alii. índios de Roraima:  Makuxí, Taurepang, Ingarikó, Wapixana. Coleção Histórico-Antropológica No. 1. CEDR – CENTRO DE INFORMAÇÃO DIOCESE DE RORAIMA, 1989.

Coudreau, Henri. La France Équinoxiale. Paris, 1887.

Diniz, Edson Soarea. Os Índios Makuxi do Roraima. Marília: coleção Teses: No. 09, Fac. de Filosofia Ciência e Letras de Marília, 1972.

Farage, Nádia. As Muralhas dos Sertões: os povos indígenas no rio Branco e a colonização. Rio de Janeiro: Paz e Terra; ANPOCS, 1991.

Fernandes, Florestan.  A Integração do Negro à Sociedade de Classes. São Paulo: USP, 1964.

Ribeiro de Sampaio, Franscisco Xavier. “Relação Geográfica e Histórica do Rio Branco da América Portuguêsa”. In: Revista Trimestral de História e Geographia. Rio de Janeiro, tomo XIII, 1850.

Santilli, Paulo. Os Macuxi: história e política no século XX. Campinas: Tese de Mestrado, IFCH.,  1989.

Carlos Borges

(Professor e antropólogo)


Cotas, racismo e a destruição do Brasil

SISTEMA COTASA entrevista com Kabengele Munanga revela uma realidade indiscutível: o sistema de cotas na educação é necessário para corrigir uma desigualdade racista. Tudo bem. Disse tudo. Porém, tem-se que pensar na seguinte situação: os mestiços são igualmente preteridos na distribuição de renda no Brasil: são os mais pobres, os analfabetos e a maioria dos desempregados. Em termos da qualificação profissional, pouquíssimos são médicos, advogados ou engenheiros. Mas são licenciados, pedagogos, historiadores, assistentes sociais,  principalmente oriundos dos cursos de ciências humanas e sociais, geralmente considerados mais fáceis nos exames de ingresso. A razão óbvia está na qualidade da educação ofertada nas escolas públicas de ensino médio, geralmente são as que fornecem quadros para os cursos de licenciatura, por exemplo. As privadas, somadas aos caros cursinhos, garantem, por sua vez, os candidatos para os cursos das profissões mais bem remuneradas. Essa distorção pode, sem dúvida, ser corrigida por um sistema de cotas com duração de duas ou três décadas, por exemplo. O que não pode é o sistema tornar-se uma lei ad infinitum em função do risco de se transformar numa medida tão injusta como a injustiça que tentou corrigir. Então, qual o tipo de cota queremos, que não seja revanchista ou coletivista? Não seria melhor  evitar sistemas de cotas?

Países que  a adotaram, como a Índia (desde a Constituição de 1949) fizeram-no para corrigir distorções muito claras. Na índia somente 1% de Dalits, considerados intocáveis, tinha curso superior, percentual que os excluía dos serviços públicos e estatais. As castas estão constitucionalmente abolidas na índia desde a década de 50, porém permanecem ativas no imaginário do país, o que faz do sistema de cotas adotado um modelo que não poderá ser abolido tão cedo. Na Nigéria o sistema foi formatado visando a inclusão social. A finalidade é alcançar regiões inóspitas no país  (veja aqui), característica que o torna distinto daquele adotado no Brasil, por exemplo.

O que foi posto em prática na África do Sul, por sua vez é um exemplo de que em países com distorções educacionais dadas pelo recorte étnico, o sistema não pode ser permanente por geral uma inversão desse recorte. Na década de 80, em pleno apartheid, decorrente das pressões populares sobre esse racismo de Estado, o sistema de cotas foi aprimorado no país para incorporar, além de negros, os mestiços e indianos. Com fim do apartheid, o sistema foi expandido para incorporar a população negra, fundamentalmente, nas atividades antes a ela obstada, como as áreas de alta tecnologia, medicina, serviços veterinários, área jurídica, odontologia e arquitetura. Esse modelo de cotas, aplicado largamente num país que respeita a autonomia universitária, foi iniciado na University of Cape Town, onde nos cursos de medicina, por exemplo, as notas exigidas dos brancos, 92, se contrastam com as exigidas dos negros, 62. Depois de anos de implantação, o  sistema começou a gerar contradições, em que as oportunidades são largamente obstadas à população branca e mestiças em favor da população negra (fonte aqui e aqui). Na Malásia, país de altíssima complexidade étnica, o sistema começou a viger em 1973 para ser abolido em 2002, depois de intensos conflitos étnicos (fonte aqui).

Nos Estado Unidos os sistemas de cotas raciais adotados em escolas foram abolidos, definitivamente, em junho de 2007, quando a Suprema Corte entendeu que a raça de uma criança não seria utilizada para determinar onde ela deveria estudar. Existem outros sistemas de cotas pelo mundo, como o do Canadá para os esquimó, o da Bélgica para imigrantes e de países como Bolívia e Equador que possuem projetos para ingressos diferenciados dirigidos à população indígena (O Estado de Roraima já possui um sistema assim funcionando na UFRR, chamado Insikiran).

Bem, e aqui neste Brasil? No sistema de cotas aqui adotado utiliza-se, como lembra Kabengele Munanga, o critério étnico-racial combinado com o critério econômico. Significa que um pardo (ou negro) de classe média, por exemplo, não poderá requerer ingresso pelo sistema de cotas, tornando-o  parecido com o sistema de cota social. Mas como um branco pobre jamais poderá acessar o sistema, mesmo que comprove ter estudado em escola pública, ele não é, todavia, social. Portanto, não é híbrido, ou étnico-racial, mas sim inteiramente étnico. É um sistema confuso para os mestiços e para os brancos pobres.

Por isso, a  dificuldade de Kabengele Munanga em entender esta confusão, pois o sistema de cotas é tão racista como o racismo que ele quer combater. É racista, sobretudo, por ser fortemente uma ação de Estado que visa a desmestiçagem. Talvez o fato deste referido antropólogo ter-se baseado no recorte étnico para explicar a correlação das classes sociais no Brasil, ideias estas defendidas por dois iminentes intelectuais marxistas, Florestan Fernandes e Octávio Ianni,  seus mentores como ele afirma, não lhe tenha feito perceber que séculos de implantação da assimilação e mestiçagem de brancos, negros e índios no Brasil não se resume simplesmente em questão de classe. O projeto desta mestiçagem começou com o início da história colonial do Brasil, ou até antes na cultura portuguesa, como explicado por Gilberto Freyre, em Casa Grande & Senzala (Global, 2003). A mestiçagem foi tão bem pontuada por esse autor, que suas ideias foram consideradas uma espécie de estética da mestiçagem por ninguém menos que Lilia Moritz Schwarcz, antropóloga  ligada à Companhia das Letras e queridinha do establishment acadêmico uspiano (leia o artigo aqui) e da pretensa intelectualidade da classe média paulista. À esteira do que disse Freyre, a mestiçagem vinha sendo praticada até dias recentes e estava inscrita na maioria dos rostos brasileiros quando de sua desconstrução através do chamado sistema de cotas voltada à educação. Darcy Ribeiro (1995, Cia das Letras) num espetacular livro, síntese de anos de estudo, chegou à conclusão de que o Brasil é um engenho de moer gente para fazer brasileiros, de fazer mestiços. Ideia de gênio, como bem era Darcy,  tão genial que as universidades brasileiras nunca conseguiram absorvê-lo (leia aqui). Preferiram Roberto da Matta e uma variedade de antropólogos menores que nunca lograram dizer nada sobre cultura brasileira que possa ser levado à serio. Entender o Brasil mestiço através de autores como Darcy, tornou-se tão somente foco de uma antropologia canhestra recolhida à insignificância de meros estudos de itinerários, chamados de etnografia do saber, como são o livro organizado por Miceli e os estudos feitos por Peirano (tese de doutorado, 1980). Tais estudos demonstram que , a mestiçagem no Brasil como projeto de nação deu lugar a leituras baseadas na etnicidade e nos conflitos permanente entre brancos, negros e  índios, como pode ser lido Octavio Ianni, por exemplo. Diz ele que: “Descendente do africano escravizado, marcado pela diáspora e pelo holocausto, compondo a mais numerosa coletividade, dentre as várias etnias; mesmo porque os brancos distribuem-se em distintas nacionalidades, fidelidades e identidades; sem esquecer que muitos compõem amplamente os trabalhadores assalariados, as classes e setores subalternos, mesclando-se com os negros e outras etnias em locais de trabalho, produção e reprodução. Sim, grande parte da questão racial no Brasil diz respeito ao negro, como etnia e categoria social, como a mais numerosa “raça”, no sentido de categoria criada socialmente, na trama das relações sociais desiguais, no jogo das forças sociais, como as quais se reiteram e desenvolvem hierarquias, desigualdades e alienações” (Ianni, 2004, p. 143). Prova de que foram encontros acidentais que renderam um ser híbrido  que ora pode ser negro, ora indígena.

Depois de tantos Lévi-Strauss, Bourdieu, Geertz deu-se a conclusão que o termo afro-descendente era mais correto ao Brasil em vez das bolorentas palavras “negro” ou “preto”. A mestiçagem, então, passou a ser considerada simples resíduos étnicos de negros africanos (leia aqui). Essas ideias fizeram  sucesso acadêmico e deram reconhecimentos aos autores, na mesma proporção da publicação de muitos livros inúteis.

Forçar o mestiço a ser negro ou indígena tornou-se regra para sua anulação total como sujeito. Pude perceber isso quando fui chamado recentemente  por uma associação de religiões afro-brasileiras do Estado de Roraima para assessorar um projeto cultural a ser apresentado à FUNARTE pelo sistema de cotas destinadas a negros. Todos os chefes de terreiro e simpatizantes foram unânimes em se dizer negro, embora mestiços fossem. Dei-me conta de que os mestiços estão em vias de extinção pela sua anulação como raça e como sujeito parte da sociedade brasileira. .

Mas tudo o que foi dito, não supõe querer negar, como diz Kabengele Munanga  “nosso racismo”, que embora apareça sorrateiro revela-se muito hostil. Porém não dá para fazer vistas grossas sobre o fato de ele não enxergar que séculos de mestiçagem entre brancos, índios e negros aproximaram as raças mais que distanciaram. as marcas dessa aproximação foram deixadas na forma do sincretismo cultural presente em todo o Brasil, outrora estudado amplamente por uma variedade antropólogos brasileiros e estrangeiros. Na umbanda, por exemplo, isso é tão patente que em estudos realizados por mim em Portugal, junto a terreiros de umbanda tocados por portugueses no Azeitão encontrei um pai-de-santo que nunca saíra de Portugal, mas  que falava quando em transe com sotaques regionais brasileiros, maneira de muitos mestiços falarem. Nas entidades que o possuía: preto-velho, baiano ou baiana ou mesmo caboclos, revelavam-se não o preto, branco ou indígena, mas entidades que retratavam a mestiçagem; ou seja, o Brasil estava no imaginário desse português na forma entidades religiosas mestiças originárias do Brasil.

Assim é o Brasil. Se existe racismo aqui, por causa da mestiçagem ele não é ostensível por aproximar as raças mais do que as distancia. Porém, o sistema de cotas quer transforma-las em etnias inimigas e vorazes (veja aqui uma jovem negra destilando ódio racista), (veja também o resultado da expulsão dos mestiços da Raposa /Serra do Sol, em Roraima. Os mestiços foram chamados de fazendeiros e expulsos, mesmo provando viver na área por mais de 100 anos  – não confundir com os chamados arrozeiros, produtores de arroz em larga escala, a maioria  oriunda do Rio Grande do Sul).

O sistema de cotas, contrário do pensa Kabengele Munanga, não irá jamais corrigir as desigualdades sociais no Brasil, irá sim fomentar a desigualdade étnica pela destruição dos mestiços, que foram paradigmas de uma raça brasileira por vários séculos.  Por que insistir, então, com o sistema de cotas? Segundo pesquisas feitas pelo renomado economista americano Thomas Sowell, da Universidade Stanford, que conduziu um sério estudos sobre sistemas de cotas em vários países, revelaram-se que não há evidências de sua eficácia em nenhuma parte do mundo (fonte aqui).

Portanto, quando se pensa em ampliar o sistema de cotas para o serviço públicorepresentação parlamentar e até mesmo para as mulheres feias nos concursos de misses (que poderá acontecer, vai ver) está se impingindo um mal enorme ao Brasil, um dano que as futuras gerações demorarão em reparar, pois irá gerar a setorização étnica do país pela eliminação da mestiçagem. Quando isso acontecer será tarde para cabeças pensantes como a de Kabengele Munanga avaliar o Brasil de verdade, aquele formado por maioria mestiça, simplesmente porque este país como o conhecemos, não mais existirá.

Carlos Borges

(Professor e antropólogo)


O PT e a elevação no número de homicídios: tudo a ver

armasRecente publicação de dados estatísticos sobre violência no Brasil indica o crescimento de 7,6% no número de homicídios em relação a 2011, com um total de  50.108 casos registrados em 2012, sendo 47.136 homicídios dolosos, 1.810 assaltos seguidos de morte e 1.162 por lesão corporal. Isso representa uma taxa de  25,8 homicídios por 100 mil habitantes.  Para se ter uma ideia do impacto desses dados, se usarmos os da ONODC (United Nations Office on Drugs and Crime)  de 2010, que indicavam  40.974  homicídios no Brasil, países considerados violentos, como a África do Sul e México, registraram para igual período, 15.940 e 27.199, respectivamente.  Países em guerra civil, como a Colômbia, do mesmo modo teve, no mesmo ano, índice menor do que o Brasil, 14.746 homicídios registrados, segundo a mesma fonte. Soma-se ao número divulgado, a elevação do quantitativo de estupros, que superou os de homicídios dolosos (com intenção de matar) em 2012, com 50.617 ocorrências (26,1), com destaque para Roraima, que apresentou 52,2 estupros por 100.000 habitantes, a maior taxa do país.  Considerando que o Estado de Roraima tem em torno de 500.000 habitantes, chega-se a uma média de 261 estupros por ano, situação de anomia  preocupante.

Parênteses. Curiosas são algumas leituras feita desse quadro. Segundo o Mapa da Violência 2012, organizado por Julio Jacobo Waiselfisz (leia aqui), 30.912 desses homicídios foram praticados por pardos, para 4.071 cometidos por negros. Estranhamente, o autor da pesquisa soma pardos e negros e chega ao montante de 34.983 homicídios para negros. O porquê da inclusão de pardos como raça negra, justifica-se, penso na minha ingenuidade,  como estratagema para legitimar a proposta do sistema de cotas. Só mesmo incluindo pardos (os quase negros e os quase brancos) como negros para justificar a ideia de que o Brasil é um país de maioria negra, e não de mestiços.

Voltando ao assunto, concomitante ao quadro desenhado acima, o consumo de drogas ilícitas no Brasil também cresceu 172% entre os anos 2000 e 2007 (fonte aqui), totalizando 870 mil usuários só de cocaína  (Relatório Mundial sobre Drogas de 2008). Isso fez do Brasil, em 2008, o segundo maior mercado de consumo de drogas das Américas, atrás apenas dos Estados Unidos com seus seis milhões de consumidores da droga (fonte aqui ).

Bem, mas por que  a notória correlação entre homicídios, estupro e consumo de drogas? A resposta pode ser obtida entendo a imposição da hegemonia  esquerdista no quadro político do Brasil, cuja história principiou a partir da década de 90, quando o PT ganhou algumas prefeituras pelo Brasil. A partir delas o PT começa a perceber que a permanência no poder depende de alianças e de apoio financeiro, prática que o PSDB sabia de cor, dado ser resultado de uma fissura do PMDB, partido notoriamente fisiologista, desde a origem (Ulisses Guimarães que o diga). A experiência anterior do PT era tão somente sindical, ambiente em que a hegemonia se impõe pela força e eliminação de recalcitrantes, violência mesmo. Nas prefeituras, os petistas logo deram conta que essa prática não poderia ser aplicada no jogo político partidário. Descobriram que as alianças fisiológicas eram necessárias assim como também era preciso corromper o que for possível e se aproximar daqueles setores podres da economia brasileira, certos empreiteiros (coleta de lixo e bingueiros) e banqueiros, como bem noticiou o The Economist, em 5 de maio de 2012 (leia aqui).  Porto Alegre, o ABC e Campinas foram laboratórios para essas experiências que posteriormente seriam a marca da gestão política do PT onde estivesse no poder. Refratários a essa agenda foram eliminados no caminho, como  Celso Daniel e Toninho. O resultado disso foram os inúmeros escândalos que envolveram o PT até culminar no famigerado MENSALÃO.

A terceira fase, por sua vez,  envolve uma complexa engenharia social de finalidade desconstrucionista, praticada antes em países essencialmente capitalista ( assista video aqui), que o Brasil copiaria a partir de sua intelligentsia acadêmica, formada a partir de bolsas de fundações nos EUA, como Fundação Ford,  Fulbright, Rockefeller e congêneres. Vinda dexperiências nas administrações de prefeituras e governos estaduais, o foco fundamental nessa fase é a educação. Sabe-se que o PT é constituído por um exército de professores universitários, a intelligentsia acadêmica que me referi, distribuídos nas mais diversas áreas do conhecimento, com  prevalência nas ciências humanas, fundamentalmente as sociais. Atentem-se ao número de doutores e mestres  nessas áreas. Qualquer um torna-se doutor.  A maioria doutora-se por ser  simpatizante do desconstrucionismo  (veja definição e como começou aqui) e do socioconstrutivismo (veja suas ambições aqui). Esses intelectuais orgânicos aparelharam a educação nos mais diversos níveis, impondo PCNs e ENEM a todo país. Nada pode funcionar, em termos educacionais, desconsiderando essas duas agendas, tanto na educação pública como privada. O resultado são jovens sem a mínima habilidade cognitiva, porém úteis como boi de manada (leia aqui), ou idiotas úteis, como dizia Lênin. À esteira desse processo, do mesmo modo, os cursos universitários foram formatados para produzir uma legião de vassalos e simpatizantes da agenda petista. Pragmáticos e relativistas, eles ocupam postos nos ministérios públicos, defensorias e outros órgãos públicos. São os gendarmes dessa agenda.

A quarta fase iniciou-se com a chegada do PT à presidência da república, e está relacionada ao aparelhamento do judiciário visando fragiliza-lo em sua autonomia como poder, como já noticiou Reinaldo Azevedo (leia aqui). Ministros indicados por esse partido ou simpáticos à sua causa fizeram do judiciário o órgão máximo de legitimação de toda agenda petista, seja em relação ao uso da terra, da política indígena, do sistema cotas, da proibição do porte de armas, do meio-ambiente, tudo foi perversamente transformado em teatralidade jurídica, transmitido pela TV e coberta pela grande mídia. O objetivo é  dar ao partido um verniz de legitimidade, mesmo diante da evidente insegurança jurídica gerada pelas sentenças proferidas.

A última fase – a mais perversa – é a lenidade com crime e com a violência, que se revelam nas altas taxas de homicídios, de consumo de drogas e do tráfico. Para entender como o PT lucra com tudo isso, primeiro é preciso explicar os motivos da expansão do consumo de drogas no Brasil. Depois  é preciso ver como a elevada taxa de violência é importante para impor a agenda petista à sociedade brasileira. Começo por uma pergunta: por onde entra a droga consumida no Brasil? Não precisa pensar muito: pela fronteira com o Paraguai. Mas sabe-se que o Paraguai é lugar para outro conhecido tipo de ilícito, não como produtor de drogas, portanto esse país é só mais elo de uma complexa conexão. Para entendê-la cito uma noticia da Agência Estado de 03/07/05:

O juiz federal Odilon de Oliveira, de Ponta Porã, na fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai, obteve evidências da atuação de guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) no treinamento de bandidos ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV) para sequestros. Segundo as apurações de Oliveira, quadrilhas de narcotraficantes do Brasil são os principais clientes da América do Sul na compra da cocaína produzida pela facção colombiana.

“Eles já estão estabelecidos no Paraguai e agora miram o Brasil, onde o potencial para esse crime é maior”, disse. “Eles treinam brasileiros lá para agir aqui.” A cocaína representa outros 45% da receita das Farcs, que produzem 39% da droga colombiana. Segundo Oliveira, os traficantes brasileiros passaram a negociar com a guerrilha a compra da droga, eliminando os intermediários colombianos. A cocaína é levada para o Paraguai antes de chegar ao Brasil. O pagamento é feito em dólares ou armas de guerra. Um exemplo é o bando de 12 integrantes liderado por Luiz Carlos da Rocha, o Cabeça Branca, e Carlos Roberto da Silva, o Charles, que usava sete aviões para levar a droga da Colômbia para o entreposto paraguaio. Ela comprava das Farcs e, em menor escala, de produtores da Bolívia e do Peru. A droga entra no Brasil pela fronteira com Mato Grosso do Sul, principalmente pelas regiões de Ponta Porã e Corumbá, e é levada para São Paulo e Paraná, para distribuição no País e no exterior. De acordo com Oliveira, o tráfico por aviões migrou para o Sul por causa da Lei do Abate, que permite à Força Aérea Brasileira derrubar aviões não identificados.

O referido juiz anda protegido 24 horas por dia. Está sentenciado à morte por quadrilheiros ligados ao narcotráfico. Mas o que isso tem a ver com o PT? Sabe-se que matéria prima da cocaína é plantada livremente na Bolívia de Evo Morales (leia aqui), com quem o PT tem simpatias socialistas, a ponto de Lula mostrar-lhe candidez patética no caso da Petrobrás, do gás e do tratamento dispensado aos brasileiros na fronteira deste país.  Outro nó dessa trama são as Farcs, comumente vistas ao lado de petistas no Foro de São Paulo e uma de suas fundadoras (leia aqui), sendo inclusive . Depois de Uribe destroçar a estrutura dos narcotraficantes na Colômbia, imediatamente as Farcs passaram o ocupar o vazio que ficou, fazendo da produção e distribuição da cocaína, uma de suas principais fonte de renda; a outra é o sequestro e o roubo de gado (leia aqui). Outrora grupo guerrilheiro pró-cubano, com a falência da União Soviética e da economia cubana, as Farcs tornaram-se narcoterroristas. Sem abandonar  a utopia cósmica coletivista, as Farcs transformaram em vantagem o que parecia ser desvantagem. A droga, além de ter-se tornado  uma lucrativa fonte de renda, consegue ferir o capitalismo nos EUA a partir de dentro, viciando e envenenando sua juventude, corrompendo o futuro desse país que tanto odeiam. A imprensa tem divulgado a vinculação deste famigerado grupo narcoguerrilheiro com o MST (leia aqui), este o braço armado do PT no campo.

Com isso, tudo se encaixa e pode assim ser resumido:

1) A elevação o número de homicídios, supostamente praticado por uma maioria negra (leia o início do post), invariavelmente pobre, está servindo para justificar o sistema de cotas e assim  desmestiçar o Brasil (veja aqui), etnizando-o,  como também  para legitimar bolsas assistencialistas permanentes de todo tipo. Para isso, as Farcs  dão sua contribuição inundando o Brasil de drogas, ao mesmo tempo se financiando para levar à frente sua utopia cósmica. Nesse quesito, pela semelhança ideológicas são próximos companheiros e ajudam mutuamente (veja aqui).

2) A imposição do desconstrucionismo na educação da juventude fez dela quantitativo  para anuir de boa mente  a destruição da religião, da identidade de gênero, da família judaico-cristã e dos valores pátrios, servindo para elevar o consumo de drogas, de estupros e de homicídios, como indicado anteriormente no item um.

3) A insegurança jurídica pelo aparelhamento do judiciário elevou a corrupção e impunidade em todos os setores da sociedade brasileira. A corrupção se soma à crise moral gerada pelos itens 1 e 2, tornando-se pandêmica e apodrecendo todos os poderes do espectro político brasileiro, do vereador ao senador, do juiz de província ao da Alta Corte, do funcionário público aos secretários; em todos os setores da vida pública a corrupção está presente, e a ela está associada a impunidade.

Como o partido pensa a longo, claro que esse quadro tende a se agravar e no caminho pode surgir uma manifestação ou outra lá, que serão facilmente absorvidas pela maleabilidade da agenda petista. O exemplo disso foram as recentes manifestações, que sacudiram para baixo a popularidade da Dilma. Mas percebam que logo em seguida ela se reuniu com os manifestantes para propor cinco medidas? (veja aqui). Todas elas importantes para reforçar a agenda petista, principalmente no diz respeito à gratuidade no transporte e reforma política (a reforma política prevê o financiamento público de campanhas. Qual partido mais em condições de tirar vantagens disso?). Como disse Olavo de Carvalho, o “PT é uma máquina de corrupção montada desde o início” (leia aqui), e a única forma de para-la será por sua completa destruição.

Carlos Borges

(Antropólogo e Professor)


Sobre black bloc e beagles: uma agenda petista

Imagem O mês de outubro esteve cheio de assuntos políticos, e sobre alguns deles quero comentar neste post. Embora sejam fatos diferentes entre si, estão muito bem articulados: falo  do caso dos beagles, a popularidade Dilma e reaparecimento de Lula

Começo com os casos de quebra-quebra e os chamados Black Blocs. Esse grupo de manifestante apareceu de forma sistemática a partir das manifestações do passe-livre em São Paulo, como uma espécie de tropa de ataque reativo contra a ação da polícia paulista, para depois ser imitado em manifestações pelo Brasil. Composto por jovens mascarados e violentos, o grupo é contra a ordem vigente, odeia o capitalismo e promove dano material  naquilo que supostamente o simboliza ou o expressa: bancos, revendas de carros, grandes lojas e instituições públicas. Suas ações são marcadas por fúria e violência; nas manifestações assim como chega desaparece, sem que seus membros possam ser identificados. São hábeis em se proteger para preparar novos confrontos.

Embora recente no Brasil, inspirado nas manifestações de 68, o nome do grupo apareceu na Alemanha por volta do início dos anos 80, e desde então seus membros estiveram presentes em manifestação pelo mundo. Ideologicamente confuso, o Black Bloc equivale às utopias anarquistas do séc. XIX, com elementos do ludismo e do bakuninista, porém misturadas à desordem mental da maioria da juventude de hoje, vítima contumaz de décadas de sócioconstrutivismo.

O que está claro é que suas as ações são capitaneadas por outros grupos, também radicais, ideologicamente mais bem constituídos, daí a relação que falei no início. Os trotskistas são os mais próximos deles, por ainda sonharem com a revolução permanente. Abrigados em vários partidos, como PSOL, PSTU e PCO, estes são profissionais em manifestação. Outros relacionados são extremistas do PT, geralmente ligados a movimentos sociais, como o Movimento Passe-Livre. Mas, o mais importante da relação é o PT enquanto partido, que vê nesse grupo um instrumento de seu objetivo absoluto: a permanência no poder para implantar sua revolução aos poucos. Por isso, como um Grande Irmão , zela por todos eles. Tanto é verdade que hoje (01\11) está no Uol Notícias, a seguinte informação: “Movidos a pesquisas e intuição, Dilma Rousseff e os operadores de sua pré-campanha enxergaram uma oportunidade eleitoral na crescente aversão dos brasileiros à violência de rosto coberto que tomou conta das manifestações de rua, sobretudo em São Paulo e no Rio de Janeiro”. Como se pode ver, todos têm aproveitado o ímpeto destrutivo dos Black Blocs a seu favor

Resumindo, o jovem Black Bloc é invariavelmente frustrado, em conflito com o mundo e consigo mesmo, sem identidade e desprovidos de um mínimo de conhecimento escolar. Por não poder expressar ideias coerentes tem o mundo como inimigo, quer destruí-lo com temor de se destruir com um tiro na cabeça. Incapacitado para qualquer ontologia, ele existe como um ninguém. Quando usa máscaras é pensando poder ser alguém.

São tão manipulados que, depois do entusiasmo do movimento Passe-livre espalhar-se pelo Brasil, tudo voltou ao normal: Haddad tirou os centavos do valor da passagem de ônibus, mas aumentou o IPTU sem qualquer manifestação Black Bloc. Tudo normal. No julgamento dos embargos infringentes o judiciário aliviou a pena aos mensaleiros, sem qualquer manifestação Black Bloc. Tudo normal. Com a popularidade subindo, Dilma aproveitou o bom momento para leiloar o campo de Libra diante de manifestações amenas e controláveis de meia dúzia de petroleiros. Até o Lula apareceu recebendo comendas e sendo acariciado em programas de TV, jurando que o bolsa-família é um presente dos céus aos miseráveis, responsável por elevar o Brasil à condição de país que mais distribui renda no mundo. Hilário, mas ele pensa assim e tudo sem um único Block Bloc.

Sem horizonte político definido, os Black Blocs são idiotas uteis que servem aos propósitos da esquerda petista justamente por atacarem instituições que o PT, em seu projeto de poder, quer destruir. Curioso perceber a simetria entre o ódio dos Black Blocs e o ódio que o PT manifesta às instituições. Odeiam as mesmas coisas: o capitalismo, o livre mercado, a liberdade, a propriedade privada, a religião, a família e, principalmente, a educação cognitiva (os dois fugiram da escola, como é sabido). É evidente que  PT alimenta e se alimenta das ações dos Black Blocs (leia a notícia citada acima). No fim todos levam, graças a essa turba ímpia, seu quinhão político, até o Alckmin elva a parte que lhe cabe (leia aqui).

Sobre os beagles e a relação com tudo o que foi dito? Bom, não vale a pena gastar muitas letras com isso, pois  quando se põe a utopia privada á frente dos interesses de uma humanidade inteira, fica difícil argumentar. Ficou evidente que os salvadores dos beagles, tal como os black Blocs, também são cheios de ódio. Odeiam as instituições científicas e suas pesquisas não se importando se elas salvam vidas. Odeiam o consumo de carne, mas esquecem de que a carne de gado que consumimos é de um animal que não compete com o ser homem na alimentação, simplesmente porque comem mato. Sobra, portanto, mais soja, mais milho, que podem alimentar muita gente. Odeiam a inteligência por não entenderem que sem pesquisa em animais não haverá remédios contra doenças mortíferas. Mas estes, como Luisa Mell, são também Black Blocs, só que mais chics, mais glamourosos. Constituem o que Reinaldo Azevedo chama de esquerda caviar. Em vez de esconder o rosto querem mostra-lo, para ganhar minutos de fama. A mídia aparelhada pelo PT adora. Aliás falarei sobre isso em outro post.

Carlos Borges

(Antropólogo e professor)


Outra vez a Raposa / Serra do Sol

ImagemLeio no portal UOL, que nesta quarta-feira, “o Supremo concluiu que as 19 condicionantes só são determinantes no caso de Raposa Serra do Sol e não podem ser tratadas como obrigatórias para outras terras. No entanto, a Corte entendeu que as regras devem servir de parâmetro para novas demarcações e de jurisprudência quando o tema for tratado pela Justiça”, selando definitivamente o destino da Raposa / Serra do Sol e afirmando o que já estava afirmado: o estabelecimento de um dos maiores latifúndios da história do planeta (1,67 milhões de hectares, equivalentes à dimensão territorial de Portugal e Bélgica juntos, que contam em torno de 22 milhões de habitantes), para pouco mais de 18 mil indígenas.

Ainda segundo o mesmo portal, o  Supremo também determinou que os índios permitam a entrada de visitantes e pesquisadores não índios na área de conservação ambiental, não cobrem tarifas para permitir a entrada nas terras e não implantem estabelecimentos comerciais nas reservas. Isto é, impôs aos indígenas da Raposa / Serra do Sol uma vida miserável, considerando que estes possuem aparelhamento cultural distinto dos Ianomâmi, por exemplo, que dependem inteiramente da floresta. Os da Raposa/Serra do Sol são criadores de gado, e por praticarem uma agricultura rudimentar dependem de centros comerciais para obtenção de alimentos. As vilas que existiam e que concentravam os comércios onde os indígenas adquiriam víveres, já não existem mais, obrigando-os a se deslocaram para as cidades de Uiramutã e Normandia, quando não, Boa Vista. Situação, sem dúvida responsável pelos inúmeros indígenas que perambulam pelas ruas de Boa Vista ou vivem em condições precárias nas duas cidades que permaneceram na área.

Bem. Isso tudo porque a justiça, muito pródiga em favores à causa indígena, entende que o Brasil tem uma dívida histórica com os índios (mesmo os negros escravizados, como também os imigrantes que chegaram ao Brasil no final do séc. XIX e início do Séc. XX), e para paga-la tornam legítimas a dimensão das terras demarcadas ou requeridas para demarcação, baseando em histórias contadas em laudos antropológicos. Sobre a Raposa / Serra do Sol, por exemplo, conta-se que os indígenas que nela estão foram os guardiões da fronteira brasileira na região contra a cobiça de estrangeiros. No entanto, as afirmações históricas que utilizam para propalar tal ideia são, em grande parte, invenções.

Em contexto assim, as palavras ditas sobrepõem-se aos fatos, tornando-se figuras de linguagem, metonímias que só geram confusão. Afirmar (como faz o texto do link acima) que os indígenas do Vale do Rio Branco eram guardiões das fronteiras da região é desconhecer completamente a história, mesmo citando fontes históricas que, imagina-se, jamais foram lidas pelos mesmos.

Joaquim Nabuco (citado no referido texto), que fez a defesa do Brasil na questão Pirara, cujo relatório (18 volumes, fora os anexos – baixe-os aqui), encontra-se todo em francês, língua que dizia pensar melhor, praticamente compulsou todas as correspondências, reports e informações escritas sobre essa região, provenientes das administrações anteriores, e que melhor se sistematizaram depois do Diretório dos Índios (1755), e em nenhum momento sugere os indígenas como guardiões de fronteira. Ao contrário, ele afirma que cada potencia colonial utilizava os índios de acordo com seus interesses na região. Os ingleses, por exemplo, argumentaram que a amizade entre Ajuricaba e os holandeses era uma prova de que eles estiveram na região bem antes dos portugueses, e que, portanto eles, os ingleses, por serem herdeiros dos domínios daqueles poderiam requerer direitos sobre a região do Tacutu e Rupununi. Os portugueses, por seu lado, teriam empreendido iniciativas no sentido de fixar os índios através de aldeamentos, que em nenhum momento foram bem sucedidas, daí a necessidade de impor fortificações e guarnições militares. É evidente que em nenhum momento houve adesão dos indígenas ao projeto colonial português; ao contrário, os índios resistiram, fugiram ou desertaram, jamais serviram para defesa de fronteiras na região do Vale do Rio Branco.

Também é evidente que, subjacente a tais relações estava a disputa pela região, e as populações indígenas eram vistas, ou como aliadas, ou como obstáculo para o sucesso da conquista. Tanto em um caso como outro, todas tiveram de ser aldeadas e assimiladas. Impossível, portanto, que os índios, num contexto de imposição de dominação colonial fossem os guardiões da fronteira. Assim, jamais existiram os guardiões da fronteira nessa região.

A verdade é uma só: os índios sempre foram joguetes das potenciais coloniais para assegurar a posse das guianas. O terrível é que outra vez a história está se repetindo, só as potências utilizam ongs para ter seus objetivos, mas agora com o aval pleno e solidário do STF, cujos ministros desconhecem que nem tudo está nas leis. Esqueceram que, como na célebre frase de Eugen Erhlich, que o direito vivo é aquele que, apesar de não fixado em prescrições jurídicas, domina a vida. Deveriam ter passado uns dias nas aldeias e fazendas da Raposa / Serra do Sol, antes de 20 de março de 2009 para terem lições de vida.

Carlos Borges

(Antropólogo e professor)


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